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P.X. A Caixa Mágica
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Publicado no Brasil sob a forma de livro com o título: "P.X. A Caixa Mágica" pela Editora Edicon - Editora e Consultoria Ltda. Autor Lenine de Carvalho.

Topo da Pagina topo da páginaAbertura

Uma caixa mágica.
De Rancharia , no interior de São Paulo,
através do P. X. Lenine entra em contacto
com o argentino Nestor.
Outros radioamadores vão surgindo:
Luiz, Graciela, Juan Carlos, Ernesto,
Milton e Marta, etc.
Forma-se a "Ronda Internacional de La Amistad".
Nestor, Carlos e Mário vêm da Argentina para
conhecer o amigo brasileiro.
Encontro emocionante.
Tempos depois, Lenine--- utilizando-se de uma
Variant ano 1974, retribui a visita.
Estas páginas emocionadas são o elogio da amizade.
A amizade que nasce através da distância e se consolida
pelas visitas.
Quase no final do seu relato, Lenine fala-nos da
Plaza de Mayo.
Fala-nos de seu protesto enfurecido contra
as forças do obscurantismo.

Editora Edicon

 

Topo da Pagina topo da páginaDedicatória

Para todos aqueles,
que solitários,
através de noites insones
se debruçam sobre seus aparelhos,
buscando um contato,
procurando,
em alguma parte do mundo,
uma palavra, uma conversa,
um ato de amor,
dedico este livro...

 

Topo da Pagina topo da páginaPrefácio

Uma pequena caixinha preta, mágica: o PX. Um quarto-biblioteca, local de trabalho, arsenal e depósito de coisas inúteis. Uma pequena cidade chamada Rancharia, com menos de 15000 habitantes. Estes ingredientes dão o ponto de partida para a trajetória vivencial e literária de Lenine de Carvalho: Professor de inglês, poliglota por acaso e curiosidade, ex-campeão de tiro com rifles, pistolas e revólveres, ex-poeta e ex-homem feliz. Ali, dentro da noite, uma nova era se inicia.

Rodeado talvez de solidão, através de sua estação Lobo Azul, passa a falar com as mais variadas pessoas. Dos mais diversos países . O que falam? Pouco importa, parece. Diz o autor: "Era fascinante ouvir pessoas que estavam a vários milhares de quilômetros de distância e poder também conversar com elas, perguntar o que faziam. Do que gostavam, como era a cidade onde moravam, seus hobbies, assim por diante".

Com tal disponibilidade faz inúmeros amigos, principalmente na Argentina, principalmente com o Nestor. Passam noites e noites conversando. Formam até a denominada "Ronda Internacional de La Amistad". Rico intercâmbio de informações, as mais variadas. Até que um dia decide. Em sua velha Variant, ano 1974, vai ao encontro dessas criaturas geradas pelo instrumentozinho de fazer amizades: o P. X.

Então começamos com o autor um longo caminho. Saímos às 3h25 de Rancharia, rumo a Buenos Aires. Deixando pela primeira vez o Brasil, já nas terras argentinas, temos a mesma impressão que ele: o país é plano como uma mesa. Narrando minuciosamente a paisagem, as pessoas que encontra, a calorosa recepção, Lenine de Carvalho nos conduz com mãos de mestre.

Vamos encontrar as " Madres de La Plaza de Mayo " que, para ele, " todas têm uma vaga semelhança com minha própria mãe". Os cassinos de Mar del Plata. Os incidentes. As músicas. Os poemas que escreve. Enfim, tudo que no final se chama viagem. E que termina. Em sua velha Variant, cúmplice desta aventura e que se comportou tão heroicamente, o caminho de volta é rápido e sem surpresas.

Eunice Arruda
Agosto 1986

 

Topo da Pagina topo da páginaAmiga Eunice

Amiga Eunice:

Não sei se você chegará a receber esta carta ou não, pois que há mais de um ano e meio estou para escrevê-la, e como sempre minha imensa preguiça me impede de fazê-lo.
Bem, já a principiei, agora, às 23 horas e quarenta minutos do dia 25 de junho de 1984, em meu pequeno quarto solidão, na cidade de Rancharia, Estado de São Paulo.
Caso eu termine um dia este escrito, e o envie para você, não sei se irá ter disposição, "saco" ou paciência para ler até o fim. Caso a leitura a chateie, não a continue, por favor.
Agora, por onde começo?
Ah! Sim! Por uma tarde em que um aluno meu convidou-me a ir à sua casa, pois ele havia comprado um equipamento de rádio transmissor e receptor e como eu falo inglês, queria tentar através de mim alguns contatos com países de fala inglesa.
Curioso, fui.
Era uma pequena caixinha negra, pouco maior que um gravador ou toca-fitas comum, com vários botões, um dial seletor e um microfone.
Bom, o amigo ligou-o e mostrou-me o funcionamento, que aliás era bem simples. Possuia 40 canais, cujos números apareciam em dígitos vermelhos sobre um quadrinho iluminado.
Em cada canal, havia duas ou mais pessoas conversando, sobre os mais diversos temas e apertando-se uma tecla no microfone, podia-se também falar com elas.
O rádio chamado no Brasil de "P. X.", estava ligado por um fio coaxial a uma antena de três elementos a 12 metros de altura.
Podia-se manter contacto com outros PXs que estivessem até a 30 km de distância, mas não se podia entrar em contacto com quem estivesse a mais de 30km e a menos de 1000km, pois as ondas de 11ms do PX, por questão de reflexão, não atingiam esse círculo, entretanto, de 1000 km para frente, cobriam o resto do planeta.
Havia uma infinidade de códigos internacionais que podiam ser usados , mas, na conversação comum , apenas uns poucos eram usados.
Apontando-se a antena para o Nor-Nordeste,, podia-se contactar
com os estados do Nordeste do Brasil, com as Ilhas Canárias e com toda a Europa.
Era fascinante ouvir pessoas que estavam a vários milhares de kilômetros de distância e poder também conversar com elas, perguntar o que faziam, do que gostavam, como era a localidade onde moravam, seus hobbies e assim por diante.
Como não podia deixar de ser, entusiasmei-me pelo PX.
Pensei em comprar um para mim, mas meu mísero salário de professor tornava isso muito difícil, embora não fosse muito caro, até que apareceu alguém propondo vender-me um bastante facilitado. Comprei-o com alguma dificuldade.
Uma nova era iniciou-se.
O PX pode ser instalado em casa, sendo então uma estação fixa, e pode ser instalado no carro, numa "gaveta" de tira e põe, sendo então uma estação móvel, e é bastante fácil e simples conseguir a legalização junto ao Dentel.
Pois bem, durante minha vida, acabei entre outras coisas aprendendo alguns idiomas, de maneira bastante curiosa, não tradicional e que seria muito longo explicar.
Um PX instalado constitui uma estação e como tal, deve ser batizada com algum nome, para facilitar a comunicação e o reconhecimento.
Batizei a minha com o nome de :
"Estação Lobo Azul".
...E os contactos se multiplicaram...
Atravessei dias e noites conversando no PX.
Ajudei a localizar gente desaparecida, transmiti mensagens de emergência, notícias alegres e tristes, nascimentos, falecimentos, acidentes, fiz chegar mensagens ao coração da Amazônia, cruzei mensagens por toda a Itália, por ocasião do terremoto de Nápoles e mil coisas mais.
Sobretudo, fiz grandes amigos em quase todos os países do mundo, recebi cartas, jornais, revistas, livros e cartões postais de inúmeros países.
Raro era o dia em que eu não recebia correspondência de 3 ou 4 países ao mesmo tempo.
Então, às 2 horas da madrugada de um dia de janeiro de 1982, iniciou-se o que viria a ser uma grande aventura.
Estava eu sem sono e sem disposição para ler ou escrever.
__ Destino existe? - Ou o acaso existe apenas por acaso?
Liguei o PX, a antena estava apontada para o sul.
Quase imediatamente, ouço uma voz forte e clara, em espanhol que diz:
__ Atento freqüência! Atento freqüência! Por acá estação Cobra Uno, operador Nestor, de Mar del Plata, Argentina, que sem sono e tomado de inquietações filosóficas e indignações políticas, busca alguém para conversar. Câmbio!
Aperto o microfone e respondo em espanhol:
__ Atento Nestor, Atento Nestor! Por acá estação Lobo Azul, operador Lenin, que também sem sono, preso de divagações metafísicas, frustrações financeiras e políticas, te deseja boa noite e muito contente passa a tua escuta, adiante, câmbio!
Assim iniciou-se meu primeiro contacto com Nestor.
Ele estava transmitindo de dentro de seu carro, estacionado em frente a sua casa de veraneio em Mar del Plata, em seu último dia de férias.
Conversamos até as 6h30 da manhã...
Falamos sobre literatura, filosofia, partidos políticos, democracias e ditaduras, a arte de fotografar, caçadas, pescarias, sonhos, e não me lembro mais de quê.
Despedimo-nos `as 6h30, pois às 7h30 eu tinha que começar a dar aulas de inglês. Nestor fêz ainda um comentário zombeteiro:
"Lenin dando aulas de Inglês! Qué Barbaridad!
Gostamos tanto de conversar um com o outro, descobrimos tantas afinidades, que ficamos de nos encontrar no outro dia, ou melhor, no mesmo dia pela frequência.
Ele me disse que voltava para Buenos Aires, onde morava e devia recomeçar a trabalhar no dia seguinte. Eram 400km de Mar del Plata, então à noite estaria transmitindo de sua casa, de sua estação fixa.
Como meu horário de trabalho ia (e vai) das 7h30 da manhã às 23h, combinamos de encontrar-nos naquele mesmo canal a partir das 23h15.
Bem, naquela noite cheguei em casa muito cansado, pois não havia dormido a noite anterior, liguei o PX e aguardei.
Às 23h30 estava tomando café na cozinha quando ouço a voz de Nestor chamando-me pelo rádio em meu quarto-biblioteca, local de trabalho, arsenal e depósito de coisas inúteis.
Fiquei muito contente e reiniciamos a conversação interrompida ao nascer do dia.
O cansaço e o sono desapareceram...
Nestor tinha a mesma idade que eu, 37 anos.
Era professor da Universidade Federal de Buenos Aires, da Cátedra de Cirurgia Dento-Maxilar era o chefe do Departamento de Radiologia dos 5 maiores hospitais de Buenos Aires, tinha uma clínica odontológica particular no centro da cidade, onde sua especialidade eram grandes cirurgias, sem anestesia e sem sair uma gota de sangue do paciente...
Como? Hipnotismo...
Mas Nestor tinha ainda outros predicados...
Era ex-campeão de luta livre, com 2 metros de altura e 135kg de músculos!
Eu era (e ainda sou) apenas um professor de Inglês, nível III, mas era também poliglota por acaso e por curiosidade, era ex - lutador de artes marciais, ex-campeão de tiro com rifles, pistolas e revólveres, ex-poeta e ex-homem feliz...
Ex demais...
E assim, todas as noites, a partir das 23h30 nos encontrávamos naquele mesmo canal e seguíamos conversando noite adentro.
No dia seguinte estávamos quase imprestáveis para o trabalho.
Com o passar do tempo, outras estações foram se fazendo presentes e participando da conversação.
Eram quase todas de Buenos Aires, algumas a poucos quarteirões de distância da casa de Nestor e não se conheciam pessoalmente.
Assim, apareceram Luiz, estación Scorpion, Graciela, sua esposa, estación Cruz del Sur, Mário, estación Curuya, Marta, estación Venus, Milton, seu esposo, estación Ala, Carlos, estación Tiburón, Juan Carlos, Mito, Ernesto, Daniel e tantos outros.
E assim formamos um grupo, que resolvemos chamar de
"Ronda Internacional de La Amistad" operando na frequência 27.675.
Todas as noites, ao voltar do colégio e ligar o PX, eu encontrava vários deles vários deles que já estavam às vêzes conversando há horas. E eles estavam sempre esperando por mim...
Uma amizade muito forte e bonita se desenvolveu entre nós.
A cada noite falávamos sobre um tema diferente, e escolhíamos um tema para a noite seguinte. Todos participavam e cada um dava sua contribuição para os demais, em conhecimentos, experiências, etc...
Assim, uma noite falávamos sobre OVINIS, outra sobre Parapsicologia, outra sobre literatura, outra sobre História Universal, Filosofia, Política Internacional, Mecânica, Cinema, experiências pessoais, o trabalho particular de cada um, etc...
Passamos a considerar-nos como uma família!
Por essa época já havíamos trocado inúmeras cartas e fotos pessoais, da casa, do cachorro, da família, da cidade, do carro, etc.
Um caso à parte, foi Mário, estación Curuya.
Tinha uma cultura assombrosa, e era capaz de falar com desenvoltura e profundidade sobre todos os assuntos imagináveis, principalmente filosóficos. Vivia a citar José Ingenieros.
Uma noite, um dos integrantes da "Ronda" perguntou-lhe afinal em que é que ele trabalhava.
Pasmo geral!
Mário era simplesmente o operador das máquinas de projeção de dois dos maiores cinemas de Buenos Aires!
Era enfim, o sujeito que passava os filmes. Mas, era também o presidente de seu sindicato, com um longo passado de liderança de greves, várias prisões e outros tantos espancamentos por parte da polícia.
Segundo ele, sua cultura devia-se principalmente ao fato de assistir obrigatoriamente a pelo menos 3 bons filmes por semana, durante os últimos 25 anos.
E nossos encontros e nossas conversas seguiam acontecendo todas as noites, quase as noites inteiras, já não conseguíamos passar sem isso.
Do Brasil, o que mais os interessava era saber sobre a Amazônia, Mato Grosso, o pantanal, os índios, a selva, os bichos, peixes e flores. Também tinham especial interesse pela macumba, umbanda, espiritismo, centros de estudos psíquicos e coisas desse tipo.
Há muitos anos atrás, o salário de um professor secundário era bastante bom, Eunice.
Antes que a ditadura militar nacional iniciasse o processo de violento achatamento salarial, que infelizmente continua em feroz vigor, um professor secundário ganhava o mesmo que um juiz de Direito.
Nessa época, eu podia e fazia o que gosto muito, ou seja: viajar, acampar, caçar, pescar, praticar tiro ao alvo, comprar armas e munições, livros, fitas, discos e fotografar tudo que achava bonito.
Assim é que já acampei nas margens de quase todos os rios de Mato Grosso norte e sul, Rondonia , Acre.
Tive contacto com índios, alguns aculturados, outros nem tanto, e sempre tive muita pena deles, por estarem fadados a desaparecer, assassinados impiedosamente pela nossa "civilização" cristã ocidental, com a inimaginável perda de suas preciosíssimas culturas e civilizações.
Estava eu portanto apto a fornecer aos amigos argentinos um sem número de informações sobre as selvas brasileiras.
Eram quase que verdadeiras conferências que fazíamos uns aos outros todas as noites.
Lembro-me de uma noite em que lhes descrevi o que é o Nordeste brasileiro, a seca, os problemas sociais, os latifúndios, e muito emocionado acabei declamando para eles, em espanhol, numa tradução imediata e imperfeita, do começo ao fim, a peça de João Cabral de Mello Neto: "Morte e Vida Severina" Houve lágrimas por todos os lados...
No fim, estavam todos tão emocionados que não conseguiam fazer comentários sobre o que tinham ouvido!... E Mário havia gravado tudo...
E outras estações iam se fazendo presentes e incorporando-se à "Ronda."
Em espanhol, declamei seus poemas, minha querida prima Eunice, declamei poemas meus, traduzi e enviei para eles fitas K7 com músicas brasileiras, principalmente Geraldo Vandré. Então, numa noite de junho, Nestor me diz:
__Lenin, já faz tanto tempo que conversamos todas as noites, que eu e os outros te conhecemos tanto, por tuas idéias, pela tua amizade, pelo imenso que gostamos de ti, que eu preciso conhecer-te pessoalmente, estreitar tua mão, abraçar-te, e passar uns dias contigo. Vou a Rancharia para conhecer-te, hermanito!
Tuas férias são no próximo mês, tratarei de tirar férias também e vou aí.
Disse a Nestor que seria uma alegria imensa, que minha humilde casa estava à sua disposição; mas no íntimo duvidei que viesse.
Mas veio. Vieram.
Nestor, Carlos e Mário.
Revezaram-se no volante de um Ford Falcón de Nestor por mais de 2.500 km.
Enquanto estavam a mais de 1000km de Rancharia, mantivemos contacto o tempo todo pelo rádio, e enquanto estavam a menos de 1000km, o contacto continuou através de uma estação brasileira que falava espanhol e estava em Tucuruí, no Pará.
Fui esperá-los a 30km de Rancharia, num cruzamento.
Emoção muito grande!
Chegaram às 10hs da noite.
Vi o Falcón, dei sinais de luz.
Responderam.
O Falcón estacionou.
__Lenin!
__Nestor!
Era impressionante o tamanho e a largura dele.
Corremos um para o outro.
Estendi a mão, que foi ignorada.
Ao invés disso, recebí um abraço que expulsou até o último átomo de ar de meus pulmões!
Com meu 1,70m de altura e 70kg de peso, eu praticamente desaparecia entre seus braços.
Ergueu-me do chão como se eu fosse uma pluma, beijou-me os dois lados do rosto e senti suas lágrimas banharem minhas faces.
__Qué alegria, Lenin! Que emoción hermanito!
Mário e Carlos também me abraçaram e me beijaram.
Foram momentos muito intensos.
Passaram 5 dias em minha casa. Apenas 5.
Gente maravilhosa, simples, sem afetação.
Não conheciam o Brasil, e saíram de Buenos Aires, dirigiram 2.500km, para passar somente 5 dias numa pequena cidade chamada Rancharia, com menos de 15.000 habitantes, sem nenhuma atração turística, sem nada de interessante para se ver, tudo isso por causa de uma caixinha preta, mágica, um instrumentozinho de fazer amizades, chamado P.X.
Foram 5 dias inesquecíveis!
Tudo para eles era novidade.
Assombraram-se por eu ter em casa, devidamente registradas e legalizadas, uma pistola automática marca MAB, de fabricação francesa, modelo militar, calibre 7,65mm, um rifle22, uma carabina 44, outra 32-20, e uma escopeta Boito, calibre 24.
Explicaram-me que na Argentina é muito difícil um civil conseguir o "Porte" legal de uma arma, que o único calibre permitido é o 22, e só se pode tê-lo dentro de casa.
Disse-lhes que quando o salário de um professor era digno, eu cheguei a ter 16 armas penduradas na parede, e munição suficiente para iniciar uma revolução sozinho.
Havia muito pouca coisa para mostrar-lhes em Rancharia, um mal cuidado balneário municipal, a praça da Matriz, os colégios onde trabalho, um pequeno cinema, mais nada.
Uma noite, levei-os à casa de meu amigo Walter, professor de Biologia, culto, sensível, excelente pessoa, para ouvir-mos vários discos de boa música brasileira.
Estavam lá vários alunos nossos, e os amigos argentinos espantaram-se com a amizade, intimidade e camaradagem com que nos tratávamos, professores e alunos.
Estávamos todos sentados no chão, ouvindo canções que eu ia traduzindo para eles, bebendo cerveja, debatendo mil assuntos diferentes, os alunos perguntando-lhes sobre a Argentina, e um dos alunos tinha o braço direito sobre os ombros de Walter, quando Mário disse que tal gesto seria inadmissível na Argentina, que havia uma distância pessoal enorme lá, entre professores e alunos, um formalismo muito rígido, e que estava achando isso muito bonito aqui no Brasil e arrematou:
__Com uma juventude desse quilate, como é que vocês ainda não transformaram este país?
Eu lhe respondi Com um trecho de uma canção uruguaia:
__ "Papel contra balas
No puede servir,
Canción desarmada
No enfrenta un fuzil..."
Nestor e Carlos iam dormir à meia-noite e acordavam às oito da manhã.
Mário ficava conversando comigo até as 6 da manhã e despertava às 2 da tarde.
Os cinco dias passaram muito depressa e uma manhã, chegou a hora da despedida.
Tinham que voltar, tinham compromissos sérios que não podiam abandonar.
Tinham vindo apenas para me conhecer!
Não é incrível?
Deixaram um vazio muito grande, uma saudade dolorida que começou na própria hora da partida.
Renovaram os pedidos, convites e exigências para que eu fosse para Buenos Aires em janeiro, minhas próximas férias, passar uns dias com eles.
Vontade não me faltava, pois eu nunca havia saído do Brasil, mas a situação econômica de um professor era (e é) muito triste...
Os contatos noturnos com a Ronda continuaram, Nestor foi eleito presidente do grupo, Luiz vice-presidente, a coisa estava muito bem organizada e todos os domingos, os integrantes da Ronda reuniam-se na casa de um deles para um churrasco à tarde.
Os meses foram se passando, e as exigências para que eu fosse para lá aumentando.
Janeiro chegou. Férias. Saudades do Rio das Mortes em Mato Grosso, do Vale do Guaporé em Rondônia, do verde e piscoso Rio Abunã, que vem da Bolívia e deságua no Madeira...
Quando eu voltaria a ver lugares tão queridos?...
Então, dei para ter saudades de Buenos Aires, onde eu nunca havia ido...
E dessa saudade, nasceu um poema, em espanhol...

 

Topo da Pagina topo da páginaBuenos Aires

Buenos Aires,
Paseo por tus calles
Que nunca vi,
Mi transitória persona,
Mezcla de interrogación y angústia,
En la interminable busca
De las respuestas
Para la soledad...
Buenos Aires que no conozco,
Hablo contigo
En este idioma que no és el mio,
Mas que siempre estuvo enclavado
En mi alma,
Como una outra alma!...
Buenos Aires,
Quisiera contar-te de todos estos gritos,
Que explotam silenciosos
En la cabecera dormida
Del amañecer trágico...
Buenos Aires...
Necesito reencontrar todos mis sueños,
Hasta mismo aquel,
El más pequeño,
Que se quedó olvidado
Entre las primeras palabras
De mi lejana niñez!...
Ah! Buenos Aires!
Tu y yo hablaríamos
Com todos mis sueños,
Y cantaríamos de rueda
Como niños felices,
Mientras no se vengan las sombras...
Buenos Aires,
Sé que tu me esperas,
Desde siempre,
Com la paciencia infinita
De los que están seguros de algo,
Y yo sé que iré...
Cuando pueda sacar de la vida,
Una pequeña parte,
De lo que me debe!...

Li para eles, através do rádio, este humilde poema, Mário gravou-o, disse que iria tentar publicá-lo numa revista literária onde tinha uns quantos amigos.
Nestor se mostrou comovido e de repente enfureceu-se.
__Lenin, definitivamente agora você tem de vir para cá, nem que eu tenha de voltar para Rancharia e trazê-lo à força para Buenos Aires!
__Afinal, por que você não vem?
__Nestor, meu amigo, acho que meu dinheiro só daria para a gasolina do carro, mais nada.
__Ótimo, pois então venha, pois aqui nós não o deixaremos gastar um único peso.
Não vai ter nenhuma despesa aqui, eu lhe prometo.
Na verdade já estamos brigando aqui, pois todos querem hospedá-lo e desfrutar de sua companhia, mas, se você não ficar em minha casa eu lhe torço o pescoço.
__Lenin, hermanito, só nos falta implorar para que você venha !
__Nestor, me voy!
__Viva!
Fiz uma revisão completa em minha velha Variant ano 74, que já estava com mais de 80 mil km rodados.
Por precaução, resolvi levar de reserva um platinado, condensador, bobina, jogo de velas, um cabo de acelerador e outro de embreagem.
Nestor me enviou um mapa rodoviário argentino, com todo o caminho traçado a tinta vermelha, desde Foz do Iguaçu até Buenos Aires.
Fiquei de sair dia 25 de janeiro, 1983, às 6 horas da manhã.
Mas, acontece que pela excitação da viagem não consigo dormir, e assim, saio às 3h25. Sozinho, dentro do carro...
Duas horas da tarde, estou em Foz do Iguaçu.
Agora, uma pequena descrição de minha fisionomia: rosto bem barbeado, cabelo cortado muito curto, sempre sério, ainda mais que como professor não tenho muitos motivos para andar sorrindo, e na cabeça um boné, azul claro, tipo quepe militar bico de pato, com uma águia metálica na frente, pois esse boné eu uso para caçar e pescar e também para dirigir em longas viagens. Óculos escuros tipo "Ray-Ban" completam minha figura.
Alfândega brasileira.
Digo que vou passar para a Argentina de carro e pergunto quais os trâmites.
O sujeito do outro lado do balcão pergunta-me se sou militar.
__Não sou professor. Por quê?
__Por nada. É que você tem tipo de militar.
Não gostei.
Como eu ia para Buenos Aires, sozinho, dirigindo o tempo todo, Nestor achou conveniente que eu me desviasse um pouco da rota, e passasse pela cidade de Corrientes, e dormisse lá uma noite, em casa de uns parentes seus, que já estavam me esperando, prosseguindo viagem no dia seguinte.
Nisso, aproxima-se do balcão um rapaz moreno, magro, miúdo, falando em espanhol com o funcionário brasileiro.
Ia também para Corrientes, pois seu carro uma Brasília Volkswagem havia quebrado o radiador de óleo do motor, e ele tinha sido obrigado a voltar ao Brasil para comprar a peça e poder consertar o carro. Era chileno, morava no Brasil e ia para o Chile, a passeio, rever familiares.
Começo a conversar com ele em espanhol.
Pergunto de que vai até Corrientes.
__Pois, de ônibus. Tomo o ônibus do outro lado, em Puerto Iguazú, viajo a noite toda, o outro dia inteiro, porque o ônibus vai parando em todo lugar e devo chegar amanhã à noite, por quê?
__Bem, é que eu também vou para Corrientes, estou sozinho, de carro, não conheço o caminho e te ofereço uma carona.
Olha-me de olhos arregalados, cheios de espanto.
__Mas é que estou acompanhado por mais dois amigos, também chilenos, oferece-nos carona aos três até Corrientes?
__Sim, claro! Estou sozinho no carro, assim vamos conversando e você me mostra o caminho.
__Meu nome é Ramón. Aperta-me a mão, estes são meus amigos Abraham e Eduardo. Foi uma sorte e uma alegria conhecê-lo.
E a balsa nos levou para o outro lado do rio.
Pisei, pela primeira vez solo argentino. Pela primeira vez eu deixava meu país.
Eu conversava animadamente com os novos amigos chilenos que encheram-se de assombro ao me verem conversar com Nestor, de dentro do carro, em cima da balsa, através do rádio.
Alfândega argentina.
Fila indiana, os chilenos em minha frente, continuamos conversando, os chilenos são tratados asperamente pelos funcionários argentinos, um deles, um tipo louro, olhos azuis e arrogância nazista, cisma que os documentos de Ramón não estão em ordem.
Este, muito humilde e educado explica que apenas há dois dias atrás havia passado por ali, tinha ido comprar uma peça para o carro que estava quebrado em Corrientes, podia mostrar a peça se quisessem.
O louro grita com ele que os documentos não estavam em ordem e ele não podia entrar na Argentina.
Os outros dois chilenos estavam visivelmente nervosos, e eu enchendo-me de indignação.
Nisto, chega a minha vez de ser atendido.
Do outro lado do balcão, um tipo baixo, forte, atarracado, moreno escuro, olhos pequenos e cara de índio, que me havia visto conversando com os chilenos grita comigo:
__C é d u l a C h i l e n a!
Olho para ele espantado e digo:
__Não tenho.
Isso o enfurece, que esmurra o balcão e diz:
__Como não tem? Está pensando que eu estou aqui para brincar?
Tenho vontade de dar-lhe uma cutilada no pescoço, em cima do pomo de Adão, mas ao invés disso, tiro os óculos escuros, olho-o bem dentro dos olhos e digo:
__Não tenho cédula chilena porque sou brasileiro. Aqui está minha identidade brasileira.
Continuo olhando-o dentro dos olhos, ele me encara desconfiado e já num tom de voz mais ameno, me pergunta:
__O senhor é militar?
__Não, sou professor.
__Ah! Professor da Escola Militar?
__Não! Sou professor da Escola Civil, professor de Inglês, não tenho nada a ver com os militares, nem os daqui nem os de lá.
Examina meus documentos e os do carro, faz várias anotações e me dá um visto de permanência por 30 dias na Argentina.
Estou preocupado com os amigos chilenos.
Estão mais adiante, conversando com o louro arrogante. Me aproximo, coloco o "Ray-Ban", ajeito o quépe e fecho mais ainda a cara. Pergunto a Ramón qual é o problema. Ele me diz que falta um carimbo em um de seus documentos e que precisará portanto fazer um requerimento, recolher uma taxa e aguardar até o dia, portanto não vai poder seguir viagem comigo; nem ele, nem seus amigos. Tomado por alguma súbita inspiração encaro o louro e pergunto-lhe rispidamente:
__Wie heissen sie? (Como você se chama?)
__Was, mein herr? (Como meu senhor?)
E com uma profunda surpresa estampada no rosto, olha-me desconfiado, agarra Ramón pelo braço e desaparece com ele para dentro de uma sala.
Olhamo-nos eu e os outros dois chilenos em silêncio.
Dali a instantes reaparece Ramón, com os papéis na mão, e dizendo agradecimentos ao sujeito. Diz que já está tudo certo e podemos ir. Lá fora nos diz que pagou um milhão de pesos (10 cruzados) ao louro, e ele mesmo colocou o carimbo.
__Ladrones! - rosna Abraham.
Então, me olham intrigados e perguntam o que eu disse ao sujeito. Conto. Ficam mais intrigados ainda. E eu também...
O tanque da Variant está quase vazio. Paro no primeiro posto para abastecer.
Ramón faz questão de pagar, embora na própria balsa eu houvesse trocado um pouco de dinheiro brasileiro por pesos argentinos. Agradeço-lhe. Pede-me que não agradeça, pois eles sim é que deveriam ir me agradecendo desde Puerto Iguazu até Corrientes. Dou uma gargalhada!
Já descontraídos vamos conversando.
Abraham e Eduardo são compadres de Ramón. Moram em São Paulo, onde trabalham. Tem suas famílias em Santiago, e há cinco anos que não os vêem.
Coloco, no toca fitas do carro, uma fita de música de protesto chilena, linda, que eu havia recebido tempos atrás de um amigo PX, chileno, através do correio.
Ficam encantados.
Eduardo exclama: __Quando contarmos no Chile, que pegamos carona de um rapaz brasileiro que falava espanhol tão bem quanto nós, que colocou música chilena no carro para irmos ouvindo, e que era a primeira vez que saía do Brasil, ninguém vai acreditar!
Contam-me do Chile, da recessão econômica, da repressão assassina, e de amigos e conhecidos, desaparecidos nas mãos dos agentes da "Lei".
É profundamente doloroso constatar que a extrema direita se apoderou de todo o continente...
Mas, a viagem prossegue, e eu vejo tudo com olhos de primeira vez!
A velha Variant comporta-se heroicamente, mantendo velocidades constantes de 100 a 130 km por hora. A gasolina argentina, muito melhor que a nossa, ajuda bastante também.
Os três vão passar um mês no Chile, há cinco anos que não vêem os parentes, e quando falam sobre isso ficam emocionados, principalmente porque os parentes não sabem que eles vão chegar.
Ocorre-me algo.
Ligo o PX, vou girando o seletor de canais, há inúmeras estações pela frequência, até que sintonizo uma estação de Santiago do Chile conversando com La Paz, Bolívia.
Quando fazem uma pausa, peço uma entrada.
De imediato, a estação chilena me contesta, me saúda, apresenta a estação boliviana e me passa a palavra.
Explico que estamos em trânsito por território argentino, um brasileiro e três chilenos, em direção a Corrientes e depois eu para Buenos Aires e os outros para Santiago.
Pergunto se lhe seria possível avisar aos parentes dos três que eles estão a caminho.
Explico a Ramón que basta apertar o botão do microfone para falar e quando terminar dizer "câmbio" para que o outro saiba que é a vez dele falar.
Ramón, um tanto inibido, começa a conversar com seu compatriota, mas em pouco tempo já esta falando com desenvoltura.
Passa o endereço e o número de telefone de seus familiares, e pede ao P.X. chileno se pode avisar seus pais, por telefone, que estão a caminho.
A estação chilena faz mais do que isso.
Como todo P.X., sente uma grande satisfação em poder ser útil, em poder ajudar as pessoas.
Assim, coloca o equipamento no carro, vai até a casa dos pais de Ramón, explica quem é e a que vem, mostra como falar no rádio, e põe Ramón em contacto direto com seus pais.
Os três chilenos ficam maravilhados!
Ramón fala com os pais, esta emocionadíssimo, chora...
Os outros dois também falam.
Estaciono a Variant à beira da estrada, sob uma árvore, quero deixá-los à vontade, desço.
Estou dirigindo por mais de mil quilômetros.
Começam a doer-me as costas e os músculos do pescoço e ombros.
Na verdade, sinto-me admirado por estar "de verdade", em um outro país, falando um outro idioma e realizando uma viagem que mal começou.
Há realidades que assustam!...
Prosseguimos.
Os três estão encantados com o P. X. , Ramón diz que vai comprar um quando voltar ao Brasil.
Conto a história da "Ronda", o motivo de minha viagem para Buenos Aires, e eles começam a se dar conta do poder imenso do P.X.
Barreira militar na estrada.
Fila de carros parados
Revista geral, de documentos, malas, sacolas, pessoas...
Entardecer...
Há metralhadoras e fuzis por todos os lados.
Aproxima-se da Variant um gorila fardado, com uma pistola 45 na mão.
Coloco a cabeça para fora da janela e com minha voz treinada de professor, séria e metálica, digo-lhe:
__ Buenas Tardes!
O sujeito olha para minha cara, estaca, perfila-se, bate continência, responde um "Buenas Tardes" surpreso, e diz:
__ Pase, por favor - faz um gesto na direção dos outros macacos e grita:
__ Qué pase el coche verde! Dejen pasar al coche verde!
__ Gracias.
__ Por nada, señor!
E assim passamos solenemente entre os outros carros que estavam sendo revistados.
Abraham me pergunta:___ Você tem certeza que nunca passou por aqui antes?
Ramón, sentado ao meu lado, dá-me um tapa na perna e com um gesto largo diz: __ Qué pase mi general! Como esta mi general? Que tenga mui buen viaje , mi general!
Rimos todos.
Raios! Será que eu tenho tanta cara de militar assim?
Se mais alguém me confundir com militar, tratarei de fazer uma operação plástica!
Sinto uma afeição muito grande pelos três chilenos, apesar de nos conhecermos há poucas horas apenas, temos a impressão de que nos conhecemos a vida inteira. Comentamos sobre isso.
Chegamos a Corrientes a 1h30 da madrugada.
A turma da "Ronda Internacional de la Amistad" desde Buenos Aires, de plantão permanente junto a seus rádios, me acompanhou o caminho todo.
Digo a Nestor que estou me aproximando da cidade.
Ele telefona a seus parentes, para que alguém venha me esperar na entrada da cidade.
Posto policial.
Ordem de parar.
Aproximam-se dois policiais fardados e um sujeito à paisana.
Um dos policiais me pergunta de onde venho.
__ Da cidade de Rancharia, no Estado de São Paulo, Brasil.
O sujeito à paisana diz: __ Algo como Lobo Azul?
__ Sim, estação Lobo Azul, operador Lenin, e você, quem é?
__ Me chamo Henri, sou marido da prima da esposa de Nestor e estou aqui te esperando, como foi de viagem?
Apresento-lhe os chilenos e seguimos seu carro até a garagem onde Ramón havia deixado sua Brasília.
Despeço-me de Ramón, Abraham e Eduardo.
Como é triste despedir-se para sempre...
Sigo o pequeno Fiat 600 de Henri, até a casa da família Rodriguez, onde estão me esperando.
Estou dirigindo há mais de 22 horas...
Preciso tomar um banho, dormir um pouco, pois ainda faltam mais de 1000km para chegar a Buenos Aires e quero sair cedo, para poder ver as coisas à luz do dia.
Estavam me esperando com um churrasco...
Recepção calorosa. Abraços e beijos por todos os lados.
Tantas demonstrações de afeto que me sinto inibido. Um bom banho e roupas limpas me reanimam, uma loção após barba sempre dá uma sensação refrescante.
Nenhum deles é P.X. e comentam admirados a grande amizade entre mim e Nestor, pois este havia passado um dia lá quando veio para Rancharia e outro quando voltou.
Nestor havia comentado muito sobre mim, e todos me solicitavam para conversar.
A família Rodriguez toda reunida à minha volta, mais vizinhos e amigos, todos querendo conversar com "el brasileño".
El asado (churrasco) estava delicioso, comi coisas que nunca havia provado, e os vinhos mais deliciosos que eu podia imaginar.
Carne, vinho, vinho, carne, um grande calor humano com que aquela gente me brindava, perguntas sobre o Brasil, a admiração por eu falar tão bem o espanhol, e assim atravessamos o resto da noite...
Meu corpo estava cansado, muito cansado.
Sem que ninguém houvesse dormido, de manhã , foram me mostrar a cidade.
Linda! O grande rio Paraná, que eu conhecia milhares de quilômetros acima, cortando a cidade, praças românticas, largas avenidas, tudo arborizado, bem cuidado, Henri conta-me que lá se realiza anualmente o torneio internacional da pesca ao dourado.
Só me deixam partir depois de almoçar.
Converso com Nestor pelo telefone, estão me aguardando e como logo mais estarei a menos de mil quilômetros de Buenos Aires, não será mais possível comunicarmo-nos diretamente através do P.X.
Saio ao meio-dia. Levam-me até a saída da cidade, com mil recomendações para eu tomar cuidado na estrada, beijos e abraços .
Parto comovido...
Estrada infinita à minha frente.
Tenho a impressão que o país inteiro é plano como uma mesa.
A velha Variant continua sem problemas a devorar os quilômetros em alta velocidade.
Sozinho no carro me pergunto várias vêzes se aquilo tudo esta realmente acontecendo.
De repente, tenho um sobressalto! Meu corpo pula como se tivesse recebido um choque elétrico! Assusto-me!
Percebo então que estou muito, muito cansado e estava dirigindo automaticamente, enquanto a mente vagava por regiões abissais.
Forço-me a permanecer alerta, seria muito desagradável sofrer um acidente, sozinho, sem muito dinheiro e num país estrangeiro.
Paro num posto, abasteço, e tomo o café mais horrível que já provei em minha vida.
A viagem prossegue, já é noite fechada.
Como estou cansado, meu Deus!
Mas se eu parar para descansar, um pouco que seja, não conseguirei continuar a viagem.
Ligo o P.X., contacto com uma estação da Venezuela, peço-lhe para sintonizar a frequência 27.675 e verificar se algum integrante da "Ronda" esta na escuta.
Vários deles estão.
A estação venezuelana gentilmente se faz de "Ponte" entre mim e a "Ronda".
Perguntam onde estou, se esta tudo bem, o que estou achando da Argentina, como esta o carro, em que velocidade estou andando, e que estão ansiosos por me ver.
Nestor diz que com alguns integrantes da "Ronda" vai me esperar no "Complejo Zarate Brazo Largo" que é um entroncamento rodoviário a uns 80km de Buenos Aires.
Calculamos que eu deva chegar lá por volta da meia-noite.
Desligo o P.X.
Enorme lua amarela ilumina tudo.
Estrada deserta. Raramente cruzo com algum carro.
O ponteiro do velocímetro marca 150km por hora!
Levo um susto!
Diminuo.
Majestoso, à minha frente, um largo rio. Águas mansas. Negras pedras. Estaciono. Desço. Noite quente.
Há um caminho até a margem. Ninguém.
Dispo-me totalmente e entro na água.
Esta uma delícia. Profunda.
O corpo se alegra com os movimentos. Nado até bem longe.
Mergulho. Parece que estou em outro planeta.
Volto nadando lentamente. Sento-me sobre uma pedra.
Fumo um cigarro.
"... I am looking for the face I had, before the world was made"
Visto-me sem me enxugar e sigo viagem, sentindo-me bem melhor. Estou a menos de 30km de "Zarate Brazo Largo", contacto com Nestor novamente, diz-me que há um posto de pedágio (o único que encontrei em todo caminho), e ele me esta esperando do outro lado.
Meia-noite.
Estou dirigindo há quase 36 horas, e acordado há mais de 50 horas. Surpreendentemente não me sinto mais tão cansado.
A mente esta clara e alerta e a expectativa é muito grande.
Imagino que devem estar Nestor, a esposa Suzana, Marta e Milton, e talvez Graciela com Luiz me esperando.
Posto de pedágio.
Todo iluminado.
Chamo Nestor pelo rádio para avisar que vou atravessar o pedágio.
Ninguém responde.
Chamo novamente. Nada. Silêncio total.
Fico intrigado, imaginando o que terá acontecido.
Atravesso o pedágio.
Na frente há um anel rodoviário.
À direita um imenso gramado, depois a pista.
Nesse gramado, há 22 carros estacionados lado a lado, e todos ao mesmo tempo, começam a soar as buzinas e a piscar as luzes.
Havia mais de 60 pessoas me esperando, desde horas, naquele local.
Emoção intensa! Ensurdecedora recepção!
Paro a Variant no meio deles!
Desço.
De braços dados, formam um cordão, que se fecha num círculo ao redor de mim.
Alguns choram!
Tenho lágrimas nos olhos!
Sobressaíndo-se entre todos, o imenso Nestor!
Meu querido amigo Nestor!
Tão enorme e tão sensível!
Como é bom ter amigos!
Nestor adianta-se. O perigoso abraço que produz alguns estalos alarmantes em meu tórax.
__ No lo mates, Nestor! - grita Luiz!
Todos me abraçam e me beijam!
Era estranho e emocionante, ouvir aquelas vozes tão conhecidas através do rádio e abraçar agora o corpo a que pertenciam, apertar-lhes as mãos, vê-los enfim.
Graciela, estación Cruz del Sur, chorava como se lhe houvessem matado todos os parentes, era baixinha e gordinha.
Milton, estación Ala, louro, magro, a minha altura, o abraço forte e a mesma voz metálica e bem timbrada que eu ouvia no rádio.
Marta, estacíon Vênus, bonita demais, cabelo claro, abraçou-me e beijou os dois lados do meu rosto.
Don Turi, pai de Graciela, 74 anos, pequeno, cabelos brancos, e que se revelaria uma fonte inesgotável de piadas e bom humor.
__ Porque me hiciste esperar tanto? Estou acá desde las nueve!
E assim foram se sucedendo os beijos, abraços, as boas vindas e um amor imenso, reinava naquele local, naquele momento, naquela madrugada!...
A maioria dos integrantes da "Ronda Internacional de la Amistad", acompanhados de suas famílias, havia ido me esperar!
Você consegue imaginar isso, Eunice? Ainda esta me acompanhando, minha querida prima? Se ainda estiver me lendo, você é uma virtuosa, Eunice!
Bem, Nestor tomou o volante da Variant, e fomos em caravana, todos para sua casa. Morava na própria Capital Federal.
Residência grande, quintal imenso, com várias mesas e cadeiras, uma churrasqueira, uma pequena piscina, e vários pequenos postes de ferro trabalhado, de onde pendiam luzes, iluminando tudo, como se fora uma pequena praça
"Un asado" me esperava.
Don Turi era o churrasqueiro.
De banho tomado e recém barbeado, eu sentia-me bastante bem, mas se fechasse os olhos, continuava vendo um asfalto sem fim entrando-me pela cabeça afora.
Todos às mesas. Vinho, carne, vinho, vinho...
Uma festa!
__ Qué hable el presidente! Grita Luiz várias vezes.
Nestor se levanta. Silêncio total. Aguardo. Ernesto, toma posição com uma filmadora de vídeo-cassete, auxiliado por alguém que segura duas lâmpada fortíssimas que iluminam toda a cena.
Nestor me chama para seu lado.
Faz-me um discurso emocionado de boas vindas, e pede que cada integrante da Ronda se levante, venha me abraçar, diga palavras alusivas e em seguida a respectiva esposa faça o mesmo.
Tudo sendo filmado, para a posteridade, segundo Nestor...
Um por um, todos me abraçam, dizem o quanto estão felizes por eu estar ali junto a eles e se colocam a minha disposição, para tudo que eu necessite.
E o churrasco continua...
Vinho, vinho, carne, vinho, vinho, vinho...
Não estou acostumado a beber.
De repente, a mesa à minha frente começa a girar!
Firmo os olhos e ela para.
Estou a beira de uma pane, penso eu.
"El asado" terminou às oito horas da manhã...
Há quanto tempo eu não dormia?
Acho que milenios-luz...
__Nestor, meu amigo, gostaria de tomar um banho e descansar um pouco.
__Sim, claro! Suzana já preparou um quarto para você, fique à vontade, quero que você se sinta em sua própria casa, como eu me senti na minha quando estive em Rancharia.
Nisto entra Suzana, acompanhada de Juan Carlos e Izabel, a esposa.
Me abraçam e me beijam.
Olho-os aturdido.
__Perdoa-me, Lenin, não ter ido recepcionar-te com os outros companheiros da Ronda, mas é que eu estava trabalhando e não podia ir.
Mas Izabel vai fazer um almoço especial em sua homenagem, por isso viemos buscar-te e a Nestor e Suzana! Vamos?
Como recusar?
De que maneira, dizer que estava quase tendo um colapso de cansado, diante de tanta expressão de carinho e amizade?
__ Ë muita bondade de vocês, Juan Carlos, peço-lhe apenas que me espere tomar um banho.
Fiz um esforço desesperado para não dormir dentro da banheira, e acabar me afogando!
O almoço terminou às 4 horas da tarde...
Voltamos para a casa de Nestor.
Eu já estava entrando em pânico. PRECISO DORMIR!
Já não estava conseguindo acompanhar direito a conversação que me dirigiam, às vêzes respondia-lhes em português.
Chegamos.
Graciela e Luiz nos estavam esperando.
Abraçam-me forte, com um carinho muito grande.
Gracielita permanece abraçada comigo o tempo todo e diz:
__ Lenin, estou preparando um típico jantar argentino para você, e viemos buscá-lo, como também a Nestor e Suzana.
Já estão lá vários outros integrantes da Ronda. Vamos?
__ Gostaria de tomar um banho antes...
Casa de Graciela.
Numa sala ampla há umas dez pessoas conversando.
Quando entro, me aplaudem.
Tomando toda a extensão de uma parede, há uma enorme bandeira do Brasil!
Não imagino onde conseguiram arranjar aquilo.
Todos querem conversar comigo.
Marta começa a conversar comigo em Francês e Inglês, os outros todos só falam Espanhol.
Um aparelho de som toca músicas folclóricas argentinas, belíssimas. Alguns cantam. Vinho, vinho, vinho. Como é delicioso. Quanto mais tomo aquele vinho, mais tenho vontade de tomá-lo.
Vinho branco, vinho tinto, vinho frisante, vinho doce, vinho seco, bebo de todos.
Pedem-me para que cante.
Não tenho voz para isso, respondo.
Cante algo para nós!
Subo sobre uma mesa, alguém toca suavemente uma guitarra.
Vinda de muito longe, uma canção em português que marcou minha infância brota de meus lábios em espanhol:
Si esta calle,
Si esta calle
Fuera mia,
Yo mandaba
Yo mandaba aqui poner,
Mil piedritas
Mil piedritas
De brilhantes,
Solo para, solo para
Usted pasar...
En esta calle
En esta celle
Hay un bosque,
Que se llama,
Que se llama soledad,
Dentro de el
Dentro de el vive un angel,
Qué robó, qué robó mi corazón...
Si robé, si robé tu corazón,
Tu robaste, tu robaste
El mio también.
Si robé, si robé tu corazón,
És porque, és porque
Te quiero yo!...
...E então as luzes da sala se apagaram...
Depois me contaram tudo.
Após a canção, comecei a conversar em Alemão com Nestor. Este aproximou-se a tempo de me agarrar no ar, enquanto eu caía muito lentamente de cima da mesa. Não tenho memória de nada disso. Disseram-se que meu corpo estava gelado, o rosto muito pálido e eu não respondia a ninguém.
Nestor telefona para um médico amigo seu. Diz que venha urgente, pois um amigo desmaiou numa festa e continua inconsciente.
Estou deitado numa cama com todos à minha volta.
O médico chega.
Ausculta-me. Toma a pressão. Com um aparelho de luz examina meus olhos. Eu nas trevas.
Reproduziram-me mais tarde entre risadas o seguinte diálogo entre eles e o médico:
__Tenho de fazer algumas perguntas.
__Pois não doutor.
__Esse amigo de vocês toma drogas?
__Claro que não, doutor! É uma pessoa decente, respeitável.
__Conheço muitas pessoas decentes que tomam drogas. Tem certeza que ele não toma?
__Bem, temos quase que certeza...
__Em que ele trabalha?
__É professor.
__E leciona aqui, em Buenos Aires?
__Não, leciona no Brasil, é brasileiro.
__E quanto tempo faz que está aqui?
__Bem, ele saiu de lá dia 25, de madrugada, passou por Corrientes, dirigiu mais de 36 horas, chegou aqui na casa de Nestor por voltas das duas da manhã, do dia 27. É isso.
__E desde que chegou o que tem feito ele?
__Bem logo que chegou o esperávamos com um churrasco, que durou o resto da noite, depois houve o almoço na casa de Juan Carlos, depois o jantar na casa de Graciela, depois...
__Um momento! Estão me dizendo que esse sujeito atravessou quase metade do continente dirigindo um carro, ficou umas 80 horas sem dormir, e desde que chegou vocês o têm levado de uma festa para outra, fazendo com que tome litros e litros de vinho, coisa a que provavelmente não está acostumado, sem deixá-lo dormir um único minuto desde que chegou?
__Bem, sim, pois é, é verdade, doutor.
__Espero nunca me tornar amigo de vocês!
__Mas, por quê doutor?
__Bando de cretinos! Querem matar o amigo de vocês com tanto excesso de atenções? Ele deve ter uma resistência de dinossauro para ter agüentado tudo isso. Não se preocupem. Ele está bem. Simplesmente deixem-no dormir até acordar por si próprio. Calculo que irá dormir uns dois dias. Quando despertar, alimentem-no com alguma coisa leve. Não façam barulho. Deixem-no dormir.
Dormi dois dias e uma noite!...
Despertei pela manhã, de não sei que dia...
Quarto estranho. Paredes estranhas. Cama estranha.
De repente, vejo Nestor à minha frente, observando-me. Surpreso, pergunto-lhe:
__O que você está fazendo aqui? Quando você chegou?
__Lenin, eu estou em minha casa. Quem chegou foi você. Você está em Buenos Aires, Lenin!
Então, num turbilhão, me vem tudo à mente...
Nesse momento, entra Suzana, com uma xícara de chá e torradas numa bandeja.
Estendo o braço para apanhar a bandeja, e onde deveria estar a minha mão, há apenas um pedaço de pano, que pende frouxo, dobrado! O coração dispara! Dou um grito abafado, de puro terror! Percebo então que estou vestido com um pijama, de Nestor, onde cabem folgadamente três de mim...
Eles caem na gargalhada!
Vamos visitar Mário, estación Curuya.
Nestor volta e eu passo um dia e uma noite na casa de Mário.
Mário conta-me coisas estarrecedoras da Guerra das Malvinas.
Diz-me que o povo foi enganado o tempo todo, pois era informado que estavam ganhando a guerra, até o último instante, quando não foi possível esconder que o assassino Menéndez havia se rendido com 14000 soldados às forças inglesas.
Mário me conta do cidadão que após a guerra, foi comprar uma barra de chocolate para o filho, no bar da esquina. Dentro havia uma carta para um soldado nas Malvinas. Outro foi comprar um casaco, numa loja, um casaco de inverno. No bolso encontrou um bilhete para um soldado nas Malvinas.
O governo militar havia vendido, para grandes atacadistas do comércio, os donativos que o povo argentino havia dado para ajudar as tropas no Atlântico Sul; e embolsado o dinheiro evidentemente!
Viva as contas secretas na Suíça!
Simplesmente repulsivo, inconcebível! Revoltante!
Passamos o tempo todo falando de política, lamentando a situação de nossos respectivos países, metendo o pau nas ditaduras e abominando, para todo o sempre, os ingleses, piratas do mundo.
Nestor vem me buscar.
No outro dia, logo de manhã vai me mostrar Buenos Aires!
Na verdade, não gosto de cidades grandes. Meu elemento natural são as matas, os rios, as pedras com todo o seu encanto primitivo, sua paz, seu silêncio...
Mas, Buenos Aires é linda!
Nestor vai me mostrando as coisas todas. Largar avenidas, teatros, cinemas, o porto, ocupado por tropas militares, passamos na frente de um imponente edifício, onde está escrito: "Ministério de la Economia Argentina".
__Mirá Lenin! Hasta las letras se cayen de verguenza!
Dou grandes risadas.
Mas, súbito, uma vaga inquietação vai se avolumando dentro de mim... Algo indefinido, como um vago prenúncio de perigo...
Eu já havia andado sozinho tempo demais pelas selvas para desprezar este tipo de sensação. Ponho-me instantaneamente alerta. Os músculos todos se enrijecem. Mas dentro do Ford Falcón está tudo em paz...
Então chegamos à "Plaza de Mayo".
E eu as vi...
Vi as "Madres de la Plaza de Mayo!"
Com os lenços nas cabaças, vão caminhando lentamente pela praça, silenciosamente...
Algumas, mais idosas, apoiam-se nas outras...
Uma dor imensa vai-se avolumando dentro de meu peito...
Levam nas mãos, grandes cartazes com os nomes e as fotos de seus filhos desaparecidos pela repressão!
Têm todas no rosto a mesma expressão de profunda tristeza, de desespero enorme, que se acalmou... De fatalidade irremediável...
Um punho invisível aperta-me a garganta...
Esta tem no cartaz a foto de uma criança de colo, que poderia ter sido meu filho, aquela a foto de uma bonita moça que poderia ter sido minha namorada, minha amante, minha irmã, meu amor...
De repente, todas têm uma vaga semelhança com minha própria mãe!
Olho-as em silêncio...
Uma lágrima rola, e outra e mais outra!
SINTO-ME VIOLENTADO, DILACERADO EM MINHA PRÓPRIA CONDIÇÃO DE SER HUMANO!
PRECISO ESVAZIAR PENTES E PENTES DE BALAS, SENTIR A CORONHA DO RIFLE SALTAR EM MEU OMBRO A CADA DISPARO, É NECESSÁRIO MATÁ-LOS A TODOS E A UM POR UM MIL VEZES, É PRECISO VINGAR EM SANGUE MEUS 30 MIL IRMÃOS ASSASSINADOS!
Nestor põe a mão em eu ombro.
__Nestor, preciso abraçar essas mulheres! Preciso dizer-lhes que as amo! Preciso louvar sua imensa coragem! Preciso falar com elas, Nestor!
__Você está louco? É perigoso aproximar-se delas! É melhor irmos embora, Lenin!
__NÃO!
Encaminho-se para as Madres.
Nestor agarra meu braço. Tento libertar-me. Não consigo. Enfio o polegar no centro de seu pulso. Ele me solta. Estou na Plaza. Ergo o punho em direção à Casa Rosada e grito:
__ASESINOS! COBARDES! MALDITOS! HIJOS DE PUTA!
Nestor imobiliza-me com uma chave de braço. Com a outra mão ergue-me pela cintura e sai me carregando rapidamente para o carro.
__Lenin, por Diós, hermanito! Vamonos de aqui!
Sentado dentro do Fálcon choro.
Choro todas as lágrimas que nunca mais havia chorado. Enfio o rosto no peito de Nestor e choro convulsivamente. Nestor me abraça, beija meu rosto, embala-me em seus braços como se estivesse ninando uma criança e chora também...
À noite, quase não consigo conversar com os amigos. Sinto-me espiritualmente enfermo...
Entre minhas coisa, há sempre papel e caneta, começo a escrever...
Para ti, madre de la Plaza de Mayo...
Yo también soy tu hijo,
Madre de la Plaza de Mayo.
Como somos tus hijos
Todos nosotros,
Los hombres que tenemos
Una consciencia libertária!...
En mi país, Madre,
No tenemos una Plaza de Mayo.
Y tampoco hace falta,
Pués todo el país Madre,
És una imensa Plaza de Mayo!...
Tu dolor,
Madre de la Plaza de Mayo,
És el dolor de todos los que sueñan
Con la libertad, la igualdad y la fraternidad.
Tu dolor, Madre,
Es el dolor de la própria democracia,
Siempre amenazada,
Por los uniformes y las botas.
Lloro contigo, Madre,
El desaparecimiento de tus hijos,
Mis hermanos Y hermanas argentinos,
Y te nombro Madre,
Porque sé
Que si yo hubiera nascido en tu país,
Mi pobre madrecita,
Estaria junto a vosotras,
En la Plaza de Mayo,
Preguntando por mi...
No outro dia, logo cedo, saímos para Mar Del Plata. São 400 quilômetros de Buenos Aires.
No caminho, vejo um maravilhoso campo de girassóis com dezenas de quilômetros de extensão. Lindo. A estrada é a mesma monotonia plana.
Chegamos.
A cidade é belíssima! Limpa. Colorida.
Encontra-se cheia de turistas.
A casa de veraneio de Nestor é acolhedora.
Ele me chama para a porta da frente de diz:
__Veja, foi deste lugar, na posição em que está o carro, que nós mantivemos nosso primeiro contacto pelo rádio aquela madrugada. Quem poderia imaginar naquela noite que eu acabaria indo para Rancharia e você vindo para cá?
Quem manejará o acaso?...
À tarde fomos para a praia.
Areia grossa, amarela.
Milhares de pessoas dentro da água.
Mar calmo. Nestor sobe numa rocha negra.
Sigo-o Do alto da rocha ele salta para a água, 2 metros abaixo. Aparece mais na frente.
__Vamos! Salte! Quero ver se você sabe nadar.
Prendo a respiração e salto.
A temperatura da água era de seis graus centígrados. O choque foi tão violento que me tirou a voz! Nado rapidamente para fora, o vento piora tudo, meu corpo vai ficando azul! Num raio de 200 metros pode-se ouvir meus dentes batendo uns contra os outros! Não consigo falar! Nestor pega uma toalha e começa a me massagear quase que me arrancando pedaços do corpo.
Leva-me para um bar e faz-me beber uma dose dupla de conhaque. E então diz:
__Raios! Você só me dá trabalho! Primeiro não aguenta tomar meio copo de vinho, depois quer enfrentar sozinho toda a repressão Argentina, e agora vai nadar e quase se afoga! Que barbaridade!
__Nestor, como podem se banhar numa água tão fria?
__É que estamos acostumados.
À noite vamos ao cassino.
Enorme, imponente, majestoso!
Por dentro, cenário de filmes!
Tapetes vermelhos e cortinas vermelhas em todo lugar. Pela primeira vez entro num cassino.
Nestor explica-me como funcionam as coisas, deixa-me numa mesa de roleta, e vai para outro recinto tentar a sorte com cartas.
Coloco uma ficha sobre um dos números da mesa. Perco. Outra ficha. Perco novamente. Paro de jogar e fico apenas observando. Olho absorto os números sobre a mesa, com o pensamento longe, e de repente, um dos números parece dar um pulo para cima. Olho melhor. Tudo normal. Deposito uma ficha sobre esse número. Dá esse número! Recebo uma porção de fichas!
Jogo novamente. Perco várias vezes. Paro de jogar. Contemplo novamente absorto a mesa, e um número brilha rápida e intensamente entre os outros. Coloco uma ficha sobre ele. Ganho!
Fico intrigado. Tendo novamente olhar-sem-ver para a mesa. Nada acontece. Deixo passar várias rodadas sem jogar. Tento outra vez. Por uma fração de segundo um dos números sobressai-se nitidamente entre os outros. Jogo. Ganho! Estou assombrado! Percebo que entre uma olhada e outra para a mesa, "sem focalizá-la" diretamente, é necessário deixar passar vários minutos, como que para "descansar".
Começo a ganhar ininterruptamente.
Passo a atrair a atenção.
Duas horas depois já não tenho mais onde guardar fichas. Estão repletos os bolsos da camisa, das calças e do paletó.
Aparece Nestor.
Perdeu bastante dinheiro com as cartas.
Pergunta-me como estou indo. Peço-lhe que me ajude a contar as fichas. Não consegue acreditar! Faz as contas. É a minha vez de ficar boquiaberto! Não imaginava que fosse tanto. Em menos de duas horas, eu havia ganho o equivalente a vários meses de meu salário como professor!
Fico entusiasmado! Quero jogar mais!
Nestor me diz: __Você não vai jogar mais.
__O quê? Ficou maluco? Imagine que descobri um sistema que...
__Conheço todas as conversas sobre sistemas, vamos lá fora que eu quero mostrar-lhe uma coisa.
E sob meus protestos sai me arrastando para fora do cassino.
Do outro lado da rua, há uma loja imensa, que fica aberta 24 horas por dia.
Vende de tudo. Máquinas de calcular, relógios, televisores, e até motocicletas. Tudo de segunda mão. Entramos. Pergunto o preço das coisas. É tudo barato demais. Acho estranho.
Nestor explica ao dono da loja que eu sou brasileiro, e pede-lhe que me diga quem são os seus fornecedores.
Sorrindo, o sujeito me diz que os seus fornecedores são os jogadores do cassino, que após perderem o que tem e o que não tem, penhoram na loja, os bens pessoais que lhes restam para poderem voltar para casa. Após 30 dias, o dono da loja entra em posse legal dos objetos e vende-os.
Fico impressionado.
Nestor me diz:
__O que estava acontecendo com você, nós chamamos de "enganche". Logo começaria a perder sem parar e acabaria tendo que deixar a Variant aqui nesta loja e voltar para Rancharia de carona. Por isso tirei-o de lá.
Contrafeito, ainda não estou muito convencido que minha sorte fosse mudar, mas são três horas da madrugada, está um frio horrível, portanto voltamos para casa.
No outro dia, voltamos para Buenos Aires.
Último dia em Buenos Aires.
Durante o dia todo "un asado" de despedida para mim na casa de Nestor. Estão lá todos os que me haviam ido esperar quando eu havia chegado.
Aperta-me o coração ter de ir embora, mas dentro de cinco dias recomeçam as aulas.
Estamos todos tristes. Eu mais que todos.
Com quanto carinho, quanta amizade e ternura me havia brindado aquela gente.
Que sensação estranha, que estonteante libertação é a gente não precisar reprimir-se afetivamente, não precisar policiar-se emocionalmente, poder abraçar e beijar alguém sem o menor constrangimento.
Argentina! Argentina! Quantas lições de amor de deste!
Meia-noite. Hora de partir.
Gracielita em prantos, me diz:
__Lenin, gracias por haver nascido!
__Eso lo tiene que agradecer a la madre! - retruca Luiz, entre risos gerias.
Abraço e beijo a um por um.
Muitos choram. Alguém começa a dedilhar uma guitarra. E todos em coro, começam a cantar muito suavemente:
"Por esa calle a lo largo
Llorando estoy...
No hallo lo que yo busco
Mas bién me voy...
Te vás,
Te vás,
Te vás...
Llorando estoy...
A los señores presentes
Llorando estoy,
Disculpen lo mal cantado
Mas bién me voy..."
Impossível reter as lágrimas...
Nestor e vários outros acompanham-me até a saída de Buenos Aires.
Despedias finais. Os pedidos e convites para que eu volte sempre que puder.
Também os convido a que venham para o Brasil, pois quero retribuir tudo o que fizeram por mim.
Caminho de volta!
Desta vez não passo por Corrientes. Venho margeando a fronteira com o Brasil até Foz do Iguaçu, onde chego ao cair da outra noite. Atravesso a última balsa. Já do lado brasileiro, durmo aquela noite dentro da Variant. No outro dia, às duas horas da tarde chego em casa. A velha Variant rodou mais de cinco mil quilômetros, sempre em alta velocidade sem furar um único pneu, e sem apresentar o mínimo problema, elétrico ou mecânico.
De lembrança, uma porção de fotos e várias fitas de belíssimas músicas com que me presentearam.
Bem, Eunice, acho que terminei esta "pequena" carta, que há tanto tempo estava ensaiando para lhe escrever.
Se você cometeu o heroísmo de ler-me até aqui, agradeço-lhe muito.
Agora, por que escrevi tudo isso para você?
Porque sou seu incondicional leitor e admirador. E ficaria muito feliz se recebesse umas poucas linhas suas, informando-me apenas se recebeu este escrito, pois tenho umas tantas desconfianças deste nosso correio.
O que mais queria dizer-lhe?
Ah! Sim! Compre um PX!
Um afetuoso abraço de seu primo e amigo.
Lenine

 

Topo da Pagina topo da páginaSobre o Autor

Lenine de Carvalho nasceu a 11/06/45 em Laranjal Paulista, SP.
Formou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia de Tupã, em 1971.
Exerce atualmente o cargo de professor de inglês da rede estadual de ensino.
Lenine fala, lê e escreve fluentemente em alemão, inglês e espanhol.
Devido à sua paixão pelo livre contato com a natureza, viaja através dos rios do Mato Grosso do Sul e Norte, Rondônia e Acre - regiões nas quais costuma acampar por longos períodos.

 

 

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