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Fernando Pessoa
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Fernando Pessoa


Poesias
 

Topo da Pagina topo da páginaAbertura

Coletânea de poesias de autoria de Fernando Pessoa selecionados por Claudia Houdelier.

 

Topo da Pagina topo da páginaCurrículo Literário

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.

É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte de sua adolescência na África do Sul, a língua inglesa também possui destaque em sua vida, com Pessoa traduzindo, escrevendo, trabalhando e estudando no idioma. Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente, na literatura, onde se desdobrou em várias outras personalidades conhecidas como heterônimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o centro irradiador da heteronímia, auto-denominando o autor um "drama em gente".

Morreu de cólica hepática aos 47 anos na mesma cidade onde nasceu, tendo sua última frase sido escrita na língua inglesa: "I know not what tomorrow will bring... " ("Eu não sei o que o amanhã trará").

- " Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso." (*)

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade." - (texto do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética") -

(*) "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu.

 

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Adiamento

Álvaro de Campos

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...  
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, 
E assim será possível; mas hoje não... 
Não, hoje nada; hoje não posso. 
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, 
O sono da minha vida real, intercalado, 
O cansaço antecipado e infinito, 
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... 
Esta espécie de alma... 
Só depois de amanhã... 
Hoje quero preparar-me, 
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... 
Ele é que é decisivo. 
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... 
Amanhã é o dia dos planos. 
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 
Tenho vontade de chorar, 
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... 
 
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 
Só depois de amanhã... 
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. 
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... 
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á, 
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 
Serão convocadas por um edital... 
Mas por um edital de amanhã... 
Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? 
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo... 
Antes, não... 
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. 
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 
Só depois de amanhã... 
Tenho sono como o frio de um cão vadio. 
Tenho muito sono. 
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 
Sim, talvez só depois de amanhã... 
 
O porvir... 
Sim, o porvir...

Sim, o porvir...

 

Topo da Pagina topo da páginaAfinal

Álvaro de Campos

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.  
Sentir tudo de todas as maneiras.  
Sentir tudo excessivamente,  
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas  
E toda a realidade é um excesso, uma violência,  
Uma alucinação extraordinariamente nítida  
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,  
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas  
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.  
  
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,  
Quanto mais personalidade eu tiver,  
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,  
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,  
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,  
Estiver, sentir, viver, for,  
Mais possuirei a existência total do universo,  
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.  
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,  
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,  
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.  
  
Cada alma é uma escada para Deus,  
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,  
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo  
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.  
  
Sursum corda!  Erguei as almas!  Toda a Matéria é Espírito,  
  
Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos  
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho  
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!  
Sursum corda!  Na noite acordo, o silêncio é grande,  
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam  
  
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos  
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.  
Sursum corda!  Acordo na noite e sinto-me diverso.  
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume  
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,  
  
Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.  
  
Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço  
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!  
Mãe verde e florida todos os anos recente,  
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,  
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis  
Num rito anterior a todas as significações,  
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!  
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,  
Grande voz acordando em cataratas e mares,  
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,  
Em cio de vegetação e florescência rompendo  
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso  
A tua própria vontade transtornadora e eterna!  
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,  
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,  
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,  
Que perturba as próprias estações e confunde  
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!  
  
Sursum corda!  Reparo para ti e todo eu sou um hino!  
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima  
Volteia serpenteando, ficando como um anel  
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,  
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.  
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente  
Meu coração a ti aberto!  
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,  
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,  
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,  
  
Sou um monte confuso de forças cheias de infinito  
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,  
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une  
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim  
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,  
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira  
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,  
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.  
  
Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.  
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,  
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo  
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos  
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.  
  
Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,  
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo  
De chamas explosivas buscando Deus e queimando  
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,  
A minha inteligência limitadora e gelada.  
  
Sou uma grande máquina movida por grandes correias  
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,  
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,  
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...  
  
Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito  
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,  
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,  
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço  
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.  
  
Dentro de mim estão presos e atados ao chão  
Todos os movimentos que compõem o universo,  
A fúria minuciosa e dos átomos,  
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,  
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,  
  
A chuva com pedras atiradas de catapultas  
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.  
  
Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio  
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.  
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,  
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,  
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,  
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,  
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,  
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,  
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

 

Topo da Pagina topo da páginaAh, a frescura na face de não cumprir um dever!

Fernando Pessoa

Ah, já está tudo lido, 
Mesmo o que falta ler!
Sonho, e ao meu ouvido
Que música vem ter?

Se escuto, nenhuma.
Se não ouço ao luar
Uma voz que é bruma
Entra em meu sonhar

E esta é a voz que canta
Se não sei ouvir...
Tudo em mim se encanta
E esquece sentir.

O que a voz canta
Para sempre agora
Na alma me fica
Se a alma me ignora.

Sinto, quero, sei que
Só há ter perdido -
E o eco de onde sonhei-me
Esquece do meu ouvido. 

 

Topo da Pagina topo da páginaAh, a esta alma que não arde

Fernando Pessoa

Ah, a esta alma que não arde
Não envolve, porque ama,
A esperança, ainda que vã,
O esquecimento que vive
Entre o orvalho da tarde
E o orvalho da manhã.

 

Topo da Pagina topo da páginaAh, onde estou

Álvaro de Campos

Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,  
A banalidade devorante das caras de toda a gente! 
Ah, a angústia insuportável de gente! 
O cansaço inconvertível de ver e ouvir! 

(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...

 

Topo da Pagina topo da páginaAh, quanta melancolia!

Fernando Pessoa

Ah, quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu

Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

 

Topo da Pagina topo da páginaAniversário

Álvaro de Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,  
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,  
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,  
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,  
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,  
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho...) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,   
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,  
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...  
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...  
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . . 
  
Pára, meu coração! 
Não penses!  Deixa o pensar na cabeça!  
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!   
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...  

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...  

 

Topo da Pagina topo da páginaA novela inacabada

Fernando Pessoa

A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.

Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
A primavera floria
Sem que houvesse primavera.

Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?

 

Topo da Pagina topo da páginaA parte do indolente

Fernando Pessoa

A parte do indolente é a abstrata vida.  
Quem não emprega o esforço em conseguir, 
Mas o deixa ficar, deixa dormir, 
O deixa sem futuro e sem guarida, 

Que mais haurir pode da morta lida,  
Da sentida vaidade de seguir 
Um caminho, da inércia de sentir, 
Do extinto fogo e da visão perdida,  
Senão a calma aquiescência em ter 
No sangue entregue, e pelo corpo todo 
A consciência de nada querer nem ser, 

A intervisão das coisas atingíveis,  
E o renunciá-las, como um lindo modo 
Das mãos que a palidez torna impassíveis.

 

Topo da Pagina topo da páginaApontamento

Álvaro de Campos

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? 
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Topo da Pagina topo da páginaAproveita o tempo

Álvaro de Campos

Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha... 
O trabalho honesto e superior... 
O trabalho à Virgílio, à Mílton... 
Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo! 
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos - 
Para com eles juntar os cubos ajustados 
Que fazem gravuras certas na história 
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)... 
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos - 
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo! 
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
Aproveitar o tempo! 
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
Aproveitei-os ou não? 
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
No comboio suburbano, 
Chegaste a interessar-te por mim? 
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo! 
Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!... 
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

 

Topo da Pagina topo da páginaAqui neste profundo apartamento

Fernando Pessoa

Aqui neste profundo apartamento
Em que, não por lugar, mas mente estou,
No claustro de ser eu, neste momento
Em que me encontro e sinto-me o que vou,

Aqui, agora,  rememoro
Quanto de mim deixer de ser
E, inutilmente, [....] choro
O que sou e não pude ter.

 

Topo da Pagina topo da páginaComo uma voz de fonte que cessasse

Fernando Pessoa

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), p'ra além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...

A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
P'ra o mistério, silêncio a que a hora assiste...

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

 

Topo da Pagina topo da páginaBem, hoje que estou só e posso ver

Fernando Pessoa

Bem, hoje que estou só e posso ver  
Com o poder de ver do coração 
Quanto não sou, quanto não posso ser, 
Quanto se o for, serei em vão, 

Hoje, vou confessar, quero sentir-me  
Definitivamente ser ninguém, 
E de mim mesmo, altivo, demitir-me 
Por não ter procedido bem. 

Falhei a tudo, mas sem galhardias,  
Nada fui, nada ousei e nada fiz, 
Nem colhi nas urtigas dos meus dias 
A flor de parecer feliz. 

Mas fica sempre, porque o pobre é rico  
Em qualquer cousa, se procurar bem,  
A grande indiferença com que fico. 
Escrevo-o para o lembrar bem.

 

Topo da Pagina topo da páginaBrincava a criança

Fernando Pessoa

Brincava a criança  
Com um carro de bois. 
Sentiu-se brincado 
E disse, eu sou dois! 

Há um brincar   
E há outro a saber, 
Um vê-me a brincar 
E outro vê-me a ver. 

Estou atrás de mim  
Mas se volto a cabeça 
Não era o que eu qu'ria 
A volta só é essa... 

O outro menino  
Não tem pés nem mãos 
Nem é pequenino 
Não tem mãe ou irmãos.  

E havia comigo  
Por trás de onde eu estou, 
Mas se volto a cabeça 
Já não sei o que sou. 

E o tal que eu cá tenho  
E sente comigo, 
Nem pai, nem padrinho, 
Nem corpo ou amigo, 

Tem alma cá dentro  
'Stá a ver-me sem ver, 
E o carro de bois 
Começa a parecer. 

 

Topo da Pagina topo da páginaCai chuva

Fernando Pessoa

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa,  
Substitui o calor. 
P'ra ser feliz tanta coisa é precisa. 
Este luzir é melhor. 

O que é a vida? O espaço é alguém pra mim.  
Sonhando sou eu só. 
A luzir, em quem não tem fim 
E, sem querer, tem dó. 

Extensa, leve, inútil passageira,  
Ao roçar por mim traz 
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira 
A minha vida jaz. 

Barco indelével pelo espaço da alma,  
Luz da candeia além 
Da eterna ausência da ansiada calma, 
Final do inútil bem. 

Que, se quer, e, se veio, se desconhece  
Que, se for, seria 
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria.

     

Topo da Pagina topo da páginaCanta onde nada existe

Fernando Pessoa

Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem(?),
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também(?)

Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem ser imaginação.

Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever !
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver... 

 

Topo da Pagina topo da páginaCheguei à janela

Fernando Pessoa 

Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.

 

Topo da Pagina topo da páginaComeço a conhecer-me. Não existo.

Álvaro de Campos

Começo a conhecer-me. Não existo.  
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,  
ou metade desse intervalo, porque também há vida ... 
Sou isso, enfim ...  
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. 
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.  
É um universo barato. 

 

Topo da Pagina topo da página Como nuvens pelo céu

Fernando Pessoa 

Como nuvens pelo céu   
Passam por mim. 
Nenhum dos sonhos é meu  
Embora eu os sonhe assim. 

São coisas no alto que são  
Enquanto a vista as conhece, 
Depois são sombras que vão 
Pelo campo que arrefece. 

Símbolos? Sonhos? Quem torna  
Meu coração ao que foi? 
Que dor de mim me transforma? 
Que coisa inútil me dói? 

 

Topo da Pagina topo da páginaContudo 

Álvaro de Campos

Contudo, contudo,  
Também houve gládios e flâmulas de cores 
Na Primavera do que sonhei de mim. 
Também a esperança 
Orvalhou os campos da minha visão involuntária, 
Também tive quem também me sorrisse. 
Hoje estou como se esse tivesse sido outro. 
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa. 
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.  

Caí pela escada abaixo subitamente,  
E até o som de cair era a gargalhada da queda. 
Cada degrau era a testemunha importuna e dura 
Do ridículo que fiz de mim. 

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,  
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre, 
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo. 
Sou imparcial como a neve.  
Nunca preferi o pobre ao rico, 
Como , em mim, nunca preferi nada a nada. 

Vi sempre o mundo independentemente de mim.  
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,  
Mas isso era outro mundo. 
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.  
Acima de tudo o mundo externo! 
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim. 

 

Topo da Pagina topo da páginaCriança, era outro...

Fernando Pessoa

Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?

 

Topo da Pagina topo da páginaDe aqui a pouco acaba o dia

Fernando Pessoa

De aqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse a que fosse, estava errada.

De aqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para o contar o coração.

E após a noite e irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?

 

Topo da Pagina topo da páginaDeixa-me ouvir o que não ouço...

Fernando Pessoa

Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...

É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir... Não fales alto!
Um momento!... Depois o amor,
Se quiseres... Agora cala !

Tênue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala...

O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez... Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem

E a verdadeira brisa, ruído...
Vejo-me, somos dois... 

 

Topo da Pagina topo da páginaDeixei atrás os erros do que fui

Fernando Pessoa

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua. 

 

Topo da Pagina topo da páginaDepois que todos foram

Fernando Pessoa

Depois que todos foram
E foi também o dia,
Ficaram entre as sombras
Das áleas do ermo parque
Eu e minha agonia.

A festa fora alheia
E depois que acabou
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Quem eu fui e quem sou.

Tudo fora por todos.
Brincaram, mas enfim
Ficaram entre as  sombras
Das áleas apertadas
Só eu, e eu sem mim.

Talvez que no parque antigo
A festa volte a ser.
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Eu e quem sei não ser.

 

Topo da Pagina topo da páginaDepus a máscara

Álvaro de Campos

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —  
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

 

Topo da Pagina topo da páginaDesfaze a mala feita pra a partida!

Fernando Pessoa 

Desfaze a mala feita pra a partida!
Chegaste a ousar a mala?
Que importa?  Desesperar ante a inda
Pois tudo a ti iguala.

Sempre serás o sonho de tim mesmo.
Vives tentando ser,
Papel rasgado de um intento, a esmo
Atirado ao descrer.

Como as correias cingem 
Tudo o que vais levar!
Mas é só a mala e não a ida [?]
Que há de sempre ficar!

 

Topo da Pagina topo da página Deve chamar-se tristeza

Fernando Pessoa 

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza  -  mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.  

 

Topo da Pagina topo da página Dói-me no coração

Fernando Pessoa 

Dói-me no coração 
Uma dor que me envergonha
Quê ! Esta alma que sonha
O âmbito todo do mundo
Sofre de amor e tortura
Por tão pequena coisa...
Uma mulher curiosa 
E o meu tédio profundo? 

 

Topo da Pagina topo da páginaDói-me quem sou. E em meio da emoção

Fernando Pessoa 

Dói-me quem sou. E em meio da emoção
Ergue a fronte de torre um pensamento
É como se na imensa solidão
De uma alma a sós consigo, o coração
Tivesse cérebro e conhecimento.

Numa amargura artificial consisto,
Fiel a qualquer idéia que não sei,
Como um fingido cortesão me visto
Dos trajes majestosos em que existo
Para a presença artificial do rei.

Sim tudo é sonhar quanto sou e quero.
Tudo das mãos caídas se deixou.

Braços dispersos, desolado espero.
Mendigo pelo fim do desespero,
Que quis pedir esmola e não ousou.

 

Topo da Pagina topo da páginaEh, como outrora era outra a que eu não tinha!

Fernando Pessoa

Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha.

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lado na maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá embaixo estamos
E é súbita a lembrança
Da velha Quinta e do espalmar dos ramos
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...

 

Topo da Pagina topo da páginaEntre o sono e sonho

Fernando Pessoa

Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim. 

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem. 

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou. 

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

 

Topo da Pagina topo da páginaEra isso mesmo

Fernando Pessoa

Era isso mesmo -  
O que tu dizias,
E já nem falo
Do que tu fazias...

Era isso mesmo...
Eras outra já,
Eras má deveras,
A quem chamei má...

Eu não era o mesmo
Para ti, bem sei.
Eu não mudaria,
Não - nem mudarei...

Julgas que outro é outro.
Não: somos iguais.

 

Topo da Pagina topo da páginaEram varões todos

Fernando Pessoa

Eram varões todos,
Andavam na floresta
Sem motivo e sem modos 
E a razão era esta.

E andando iam cantando
O que não pude ser,
Nesse tom mole e brando
Como um anoitecer

Em que se canta quanto
Não há nem é e dói
E que tem disso o encanto
De tudo quanto foi.

 

Topo da Pagina topo da páginaEscrito num livro abandonado em viagem

Álvaro de Campos

Venho dos lados de Beja.  
Vou para o meio de Lisboa. 
Não trago nada e não acharei nada.  
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei, 
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro. 
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.

 

Topo da Pagina topo da páginaEsta velha

Álvaro de Campos

Esta velha angústia,  
Esta angústia que trago há séculos em mim,  
Transbordou da vasilha, 
Em lágrimas, em grandes imaginações, 
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, 
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. 

Transbordou.  
Mal sei como conduzir-me na vida 
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! 
Se ao menos endoidecesse deveras! 
Mas não: é este estar entre, 
Este quase, 
Este poder ser que..., 
Isto. 

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,  
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio. 
Estou doido a frio, 
Estou lúcido e louco, 
Estou alheio a tudo e igual a todos: 
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura 
Porque não são sonhos. 
Estou assim... 

Pobre velha casa da minha infância perdida!  
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! 
Que é do teu menino?  Está maluco. 
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? 
Está maluco. 
Quem de quem fui?  Está maluco.  Hoje é quem eu sou. 

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!  
Por exemplo, por aquele manipanso 
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. 
Era feiíssimo, era grotesco, 
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê. 
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer — 
Júpiter, Jeová, a Humanidade — 
Qualquer serviria, 
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? 

Estala, coração de vidro pintado!

 

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