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Topo da Pagina topo da páginaO Lulismo como Neopopulismo

A crise econômica no início do novo século viabilizou a eleição de Lula, líder carismático e ex-sindicalista, do Partido dos Trabalhadores.
Em sua interpretação:
“Eu só estou presidente da República porque o país chegou a um fundo do poço tão grande que o povo pensou: ‘Vamos colocar um peão para ver se ele consegue resolver esse negócio.’Não foi por outra razão.” (fragmento extraído do Dicionário Lula, de Ali Kamel, p.428).
“...porque, até antes de mim, a Presidência da República era um cargo pensado apenas de forma elitista.(...) Nós, a parte pobre deste país, era pensada apenas como eleitor ou eleitora, a cada quatro anos.” (idem, p. 282).
“...Antes era tudo do jeito que o diabo gostava. Agora é tudo do jeito que Deus gosta.” (idem, p.241).
Estavam reunidas as condições para a emergência de um populismo de nova geração: a identificação e o vínculo direto entre o líder carismático e as massas empobrecidas.
A análise do discurso revela a estratégia típica do populista: o personalismo (“eu”), a referência ao conceito vago de “povo” -numa época de declínio das classes sociais e de despolitização-, o vocabulário popular e polarizador (“fundo do poço”, “peão”, “pobre” x ”elitista”, rico) e o messianismo (“...para ver se ele consegue resolver esse negócio”; “...do jeito que Deus gosta.”).
A sociedade de massas brasileira já era uma  “sociedade do espetáculo”. “Lulinha, paz e amor” não desperdiçou a oportunidade para cultivar, engrandecer sua imagem. O fermento eram as frustradas expectativas das massas.
O manejo da estratégia populista passa pela adulação do povo e pela auto-promoção do pai salvador:
“O povo brasileiro realmente é um povo fantástico, porque mesmo quando as pessoas estão desempregadas, mesmo quando as pessoas estão sem dinheiro, mesmo quando as pessoas não estão podendo comprar aquilo que querem, estão acreditando que o amanhã vai ser melhor e nós representamos essa esperança em que o povo brasileiro tanto acredita e tanto deposita a sua fé.” (idem, p.555).
“Quando eu digo que Deus é generoso comigo, é porque algumas coisas aconteceram que não estavam previstas, que parece que têm o dedo não meu, mas o dedo de alguém.” (idem, p.241).
 Quem foi investido para implementar uma solução mágica?
“Deus não elege um pernambucano de Caetés todo ano para presidente da República. Não elege um metalúrgico todo ano para presidente da República.”(idem, p.239).
“...E eu dizia e repito: eu quero provar que um metalúrgico é capaz de fazer por este país muito mais do que a elite fez durante os 500 anos em que ela governou este país.” (idem, p.283).
Como?
“...O objetivo do Bolsa Família é exatamente esse. É encher a barriga das pessoas até que surja a oportunidade de emprego, porque se não tivesse o Bolsa Família, muitos morreriam antes de poder ter acesso a um posto de trabalho, a uma oportunidade de trabalhar.” (idem, p.145).
“...o Brasil tem uma maioria pobre, o Brasil tem uma maioria sertaneja...O que nós estamos fazendo? Nós não estamos fazendo nada mais nada menos do que repartir para o povo pobre o dinheiro que nós arrecadamos dos ricos.” (idem, p.543).
Foi este estilo populista do programa social de transferência de renda para   as camadas mais pobres que catapultou seu índice de aprovação popular para 80%.

Belo Horizonte, novembro de 2009.

 

Topo da Pagina topo da páginaA Odisséia do Ex-Generalista Contra o Minotauro

O “Minotauro” é uma das figuras para descrever o Estado Neopatrimonialista brasileiro. Além da mistura do público e do privado, tem dois outros traços característicos: uma burocracia enorme, lenta e ineficaz e o despotismo absolutista.
Retomemos o Generalista onde o deixamos: um “cabra marcado para morrer”. A ação despótica do “baixo-clero” da hierarquia - num desvio organizacional de apropriação particular de segmento da ponta da burocracia mecanizada, o haviam encaminhado, como recalcitrante, para a Correção.
Esta instância  - copiando o “Processo” de Kafka -, deixou G. (o Generalista) esperando longamente diante de suas portas (“A melhor forma de conhecer a Justiça é sofrer uma injustiça.”). Ainda não se sabe se terá o mesmo destino de J.: morrer como um cão, no final do processo.
Pode-se perceber a distância do tipo de dominação política arcaica do que seria o tipo racional-legal moderno (Weber). O servidor público, na conhecida cisão entre os que executam e os que decidem, é tratado como um súdito. Possui deveres de servo e não direitos de cidadania. O Direito visa primordialmente assegurar a obediência dos dependentes e os privilégios da autoridade. Os abusos de poder ficam fora do  controle legal e o arbítrio se expande sem cerceamentos.
Porque esta assimetria na relação patrão/assalariado? A venda da força de trabalho para o proprietário dos meios de produção deveria ser regulada legalmente nos dois pólos da equação. Porque a antiga relação mestre/escravo permanece em patamares tão primitivos?
A resposta é encontrada nas instituições herdadas pela ex-Colônia Portuguesa. Portugal, após o pragmatismo inovador da Época das Descobertas, caiu no obscurantismo da Contra-Reforma. Enquanto isso, o Norte da Europa entrava na Revolução Industrial. A ruptura com o Antigo Regime, operada através da Revolução Francesa, nada teve de semelhante no Mundo Ibérico. No Brasil é costume nas crises sociais ocorrer a conciliação pelo alto, a oligarquia dominante encontrando soluções negociadas entre pares e evitando o conflito.
 Quais formas de resistência podem ser empregadas? O conflito acaba em processo, como foi descrito acima. O diálogo direto pode ser uma tentativa pelo menos protelatória e redutora de tensões. Pode-se tentar o recurso burocrático de recorrer à instância hierárquica imediatamente superior. Corre-se o risco da chefia imediata se sentir curto-circuitada e reagir com mais repressão. Resta a perigosa resistência passiva: demora na entrega das tarefas, atrasos, faltas, licenças médicas, etc. e, por último, a licença sem vencimentos (enquanto se procura outro trabalho).
A crítica intelectual, como esta, serve para a elaboração de uma situação no limite do suportável, de escoadouro para o ódio represado, de antídoto para a loucura.

Belo Horizonte, 17 de março de 2010.

 

Topo da Pagina topo da páginaA Defesa do Generalista

Eu, o Generalista, -intimado a ,prestar esclarecimentos /testemunho em processo administrativo disciplinar-, alego que não cometi nenhum ilícito administrativo, nem faltei de lealdade para com a Instituição. 

Não ocupo cargo de confiança. Sou pessoa idônea, de 64 anos, médico concursado (5º lugar na especialidade) e jamais fui submetido a um órgão disciplinar.

As acusações a mim imputadas nos autos constituem uma rede de calúnias e de difamações. Vou revelar as coisas escondidas por trás deste emaranhado persecutório real.

O estopim deste litígio foi a transgressão administrativa de ato médico por parte da gerente, Sra.  Fulana, no Centro de Saúde X. Esta irregularidade foi devidamente levada ao Conselho Regional de Medicina, que encaminhou ofício ao Senhor Secretário Municipal de Saúde.

Como represália, à minha defesa do exercício da medicina livre de intimidações, a Gerente me descredenciou do Programa Saúde da Família.

Cito como evidência, para desqualificar sua coleção de disparates, dois documentos oficiais: minhas avaliações de desempenho (satisfatórias) no Centro de Saúde X.  Como posso ter sido bem avaliado com o passivo alegado? Fica absolutamente demonstrado o caráter  arbitrário do meu descredenciamento diante do critério  objetivo de aferição.

Apesar de ter procurado um novo começo em outro Centro de Saúde,  descobri, - da pior forma possível-, que tinha ficado estigmatizado.

Tudo parecia correr bem quando fui chamado, - de forma irregular pois estava em meu horário de almoço-, pela ex-gerente, Sra. Y. .Cheguei de espírito tão desarmado em sua sala que pensei, ingenuamente, que desejava se despedir. Fui surpreendido com a leitura de um arrazoado desvairado que me achincalhava profissionalmente.

Alguém já afirmou que uma palavra contundente é algo que pode matar ou humilhar, sem que se sujem as mãos.

Diante deste desrespeito, indignei-me, e reagi com veemência, - exercendo meu direito natural à legítima defesa. Há um limite para o aviltamento do médico. Neste episódio fui vítima de um ato abusivo, de quem antes, - no  exercício do cargo-, fora incapaz de expor toda sua percepção face a face.

Para mim a causa desta atitude de má-fé foi a caça de um bode expiatório para carregar a culpa pela sua saída vexatória da Gerência do Centro de Saúde.

Para caracterizar o absurdo de toda esta operação de manipulação selecionei a ridícula acusação de danificar o carro da ex-gerente. O mais esdrúxulo desta invencionice chula foi que nunca tive a menor idéia qual era. Por outro lado, ia a pé para o local de trabalho. Que tipo de relação era essa entre a ex-gerente e o guarda municipal para tramar tal artimanha? Onde está o BO (Boletim de Ocorrência) de acusação tão grave e feita de forma tão leviana? Gente que é capaz de lançar mão de um  subterfúgio desta natureza não pode ser levada a sério. Mais uma vez fui alvo de injúria e mentira, de danos morais.

Um antigo filósofo grego atribuiu ao amontoado de calúnias e difamações ter sido processado e predizia que outras pessoas de bem não seriam poupadas do mesmo infortúnio.

A verdade é que este processo está de sinais trocados: não sou infrator, mas sim vítima de Assédio Moral.

Solicito que esta defesa, por escrito , seja juntada aos autos, como meu testemunho.

Belo Horizonte, abril de 2011.

 

Topo da Pagina topo da páginaA Contradição entre a Tradição e o Moderno na Central de Regulação

A Central de Regulação, em foco, é uma unidade de processamento de informações sobre hospitalizações de urgência, de determinada região. A distribuição espacial dos recursos humanos é dividida entre uma grande sala, onde estão os computadores e os operadores -sem divisórias ou baias-, e uma menor, destinada à coordenação e seus auxiliares.

Trata-se, pois, do uso de uma tecnologia moderna de informação, operada por recursos humanos do Sudeste brasileiro. Instaura-se aí uma clivagem, ilustrada por Faoro: a ex-Colonia apropriou-se das modernas técnicas do capitalismo, mas não de sua “alma”. Na prática, os info-proletários possuem uma cultura híbrida, mistura da tradicional e da moderna. A resistência à relação de trabalho capitalista, contratual, manifesta-se através da linguagem corporal: há grande necessidade de comunicação oral, contínua e alta, muitas vezes versando sobre assuntos diversos. O calendário festivo é um ritual obedecido sem falhas, desde os aniversários dos membros da equipe até os enfeites comemorativos dos feitos esportivos. Portanto, constata-se, em ação, os resquícios de uma cultura tradicional, familísta e comunitária, de raízes no arcaico mundo rural.

Porque as conversas paralelas devem ser evitadas? Porquê a Central de Regulação é uma unidade de processamento de informação. O "ruído" humano (poluição sonora) compete diretamente com estas operações abstratas, estabelecendo um canal competitivo de mensagens de outra natureza. A consequência é que o trabalho de informação fica prejudicado, além do desgaste desnecessário. Não basta o sistema informático ser avançado se as pessoas que o operam não contribuírem adequadamente. O desafio é que o fluxo informacional não tenha um ritmo excessivo e que o grupo não precise lançar mão de mecanismos de fuga da tarefa.

O “Panóptico” (a sala gerencial) fica em lugar privilegiado para tudo observar. Por que não há intervenção, no sentido de modulação de comportamentos compatíveis com o funcionamento de uma unidade de trabalho abstrato? Porquê há medo do “povo” e há interesse na  cooptação de uma mão de obra mal remunerada e explorada. A velha fórmula do compromisso, atravancando uma verdadeira evolução social que romperia com a armadura pesada do arcaísmo.
               
Belo Horizonte, abril de 2011.

 

Topo da Pagina topo da páginaMonagrafia Curso de Especialização


Dedicatória
À memória do meu irmão,
Rowilson Flora Filho
                       
A Herança Clínica e os Problemas Psicológicos na Prática Médica
                       
Por Fernando Antonio Mourão Flora

Resumo

Introdução:

Denominamos, em sentido amplo, de “problemas psicológicos” na prática médica à questão a ser examinada nesta monografia, bem como uma proposta para solucioná-la.
Pode-se entender por “problemas psicológicos” na prática médica uma ampla rede de patologias, que abarca, pela incidência, os transtornos somatomorfos, os episódios depressivos com sintomas somáticos e as conversões.
Os transtornos somatomorfos (ou funcionais) do organismo compõem um grupo heterogêneo de distúrbios que não apresenta nenhuma patologia orgânica. O primário nestes pacientes é uma atitude ou desenvolvimento psíquico anormais, que secundariamente dão lugar a disfunções vegetativas, vasculares ou neuroendócrinas, segundo H. J. Weitbrecht(1).
 Um expressivo número de indivíduos -rotulados como “nervosos”, “neurastênicos”, “psicastênicos”, “histéricos”, “neuróticos e psicopatas”, “doentes funcionais”, doentes “psicógenos”, “doentes psicossomáticos”, etc.-,  pode apresentar distúrbios funcionais.
Os transtornos somatomorfos situam-se na fronteira da psiquiatria e da medicina.   Possuem os atributos seguintes: (i) a tendência do paciente a experienciar e a comunicar sintomas somáticos; (ii) os sintomas não são sustentados por achados patológicos; (iii) o paciente atribui suas queixas a uma doença física; (iv) o paciente procura ajuda médica para os sintomas; (v) o estresse psicossocial, assim como a vulnerabilidade da personalidade ao estresse, pode ser uma característica associada (embora o paciente não reconheça e até mesmo negue qualquer ligação entre os sintomas e causas psicológicas). O denominador comum destes distúrbios é que tendem a se manifestar “como se a anatomia não existisse”. ( ) 
A maioria destes pacientes é vista e tratada por médicos generalistas, por especialistas (não-psiquiatras) ou por adeptos da medicina alternativa.( ) São muito comuns nos consultórios dos médicos generalistas. Estima-se  em um terço o número de consultas em atenção primária em que nenhuma patologia orgânica é identificada (na experiência do consultório de médico da família de Waco, Texas, em 1073 pacientes foram identificados 120 com transtornos somatomorfos) ( ).
Não é fácil fazer o diagnóstico de transtorno somatomorfo. É evocado pelo generalista quando o paciente apresenta, repetidamente, queixas vagas e variadas, sem uma etiologia estabelecida. Estes pacientes requerem mais tempo de consulta e são considerados “difíceis” (“doctor shoppers”).
 Estes problemas clínicos, portanto, são freqüentes e associados com altos custos diretos e indiretos. Os pacientes com transtornos somatomorfos são submetidos a uma enorme bateria de exames complementares e procedimentos diagnósticos inúteis. Os resultados falso-positivos podem levar a tratamentos equivocados, complicações, morbidade desnecessária e a desperdícios.
Por se situarem na fronteira entre disciplinas, existe pouca pesquisa sobre o diagnóstico e o tratamento dos transtornos somatomorfos. O balanço do tratamento dos transtornos somatomorfos na prática do generalista pode ser considerado como insatisfatório. Os médicos focalizam o alívio dos sintomas através da prescrição de medicamentos, como é o procedimento padrão . Várias tentativas terapêuticas acabam não dando resultado, frustrando o médico e o paciente.
O médico generalista -condicionado a lidar com o “orgânico” por uma longa tradição secular-, tem dificuldade em sua prática cotidiana para lidar com os problemas psicológicos de seus pacientes. Isto porque não encontra o substrato anátomo e/ou fisiopatológico a que foi exercitado a descobrir. É costume, então, emitir o següinte juízo, eivado de consequências: “o paciente não tem nada” ou “a doença está na cabeça do paciente”(a peça teatral “O doente imaginário” de Molière, é um exemplo deste tipo de patologia)

1. O Nascimento da Clínica:

Este é o título do livro de M. Foucault que escava a arqueologia do saber médico ocidental através de uma análise estrutural de seus textos (1).
Desde a Renascença, ocorreu uma mudança na tradição médica, que vinha desde o Vº século, na Grécia, com a longa história dos sistemas -ou seja, da influência da metafísica. Pode-se situar o nascimento da medicina moderna no final do XVIIIº século. Passou-se a privilegiar o empírico (a percepção) e a razão, com o abandono das teorias, dos velhos sistemas e de suas especulações imaginárias. A experiência clínica pôs por terra o dogma aristotélico e iniciou o discurso científico.  Como se estruturou esta proto-clínica ?
Nos seus primórdios, esta medicina era classificadora. A experiência médica do XVIIIº século ocupou-se, constitucionalmente, de estruturar um campo nosológico. Estudava-se “a maneira como a natureza produz e entretém as diferentes formas de doenças” (Th. Sydham, Médecine pratique, Paris, 1784). A doença recebeu uma organização hierarquizada em famílias, gêneros e espécies. Frier  ensinava: “O conhecimento das doenças é a bússola do médico; o sucesso da cura depende de um conhecimento exato da doença” (Guide pour la conservation de l’homme, Grenoble, 1789).
A medicina das espécies patológicas considerava o hospital um lugar artificial, onde a doença alojada incidia no risco de perder suas características originais. Ela podia sofrer toda forma de complicações, que os médicos chamavam “febre” dos hospitais ou das prisões. O lugar natural da doença era o da vida: a família. Diferente do internista, que lidava com doenças desfiguradas, o médico que tratava a domicílio “adquire em pouco tempo uma verdadeira experiência, fundada sobre os fenômenos naturais de todas as espécies de doenças”(Dupont de Nemours, Idées sur les secours à donner,  Paris, 1786).
O papel do médico era o de descobrir a doença no doente, escondida nele como um criptograma. A doença possuía uma organização que lhe era própria. O doente era um "acidente" da doença, o objeto transitório do qual ela se apossou. Cabanis (Observations sur les hôpitaux) escreveu: "as diferentes doenças servem de texto". O doente era o veículo através do qual este texto se exprimia, ás vezes de forma complicada e embaralhada. A. Girbal (Essai sur l'esprit de la clinique médicale de Montpellier, Montpellier, 1858) descrevia o domínio clínico: "Esclarecer o princípio e a causa de uma doença através da confusão e da obscuridade dos sintomas; conhecer sua natureza, suas formas, suas complicações; distinguir na primeira olhada todas  as suas características e todas as diferenças(...)".
O exame clínico procurava estabelecer a relação entre os fenômenos, os antecedentes e os distúrbios constatados, de forma a poder pronunciar um nome: o da doença. Uma vez feita esta designação, deduzia-se facilmente as causas, o prognóstico, as indicações. Tratava-se, portanto, da descoberta de uma "verdade", escondida, já presente no corpo do doente: o nome da doença.
A clínica consistia na arte de "demonstrar mostrando". Cabanis explicou o ensino médico: “O professor indica a seus alunos a ordem pela qual os objetos devem ser observados, para serem melhor percebidos e gravados na memória; (Observations sur les hôpitaux, Paris, 1790). Acompanhe-se a descrição das aulas de clínica cirúrgica de Desault, em 1781, no Hôtel-Dieu: " Sob os olhos de seus espectadores, fazia trazer os doentes mais graves, classificava suas doenças, analisava as características, definia a conduta a ser adotada, praticava as cirurgias necessárias, prestava conta dos seus procedimentos e de seus motivos, mostrava as mudanças diárias e apresentava o estado das partes após a cura...ou demonstrava sobre o corpo privado de vida as alterações que haviam tornado a arte inútil." (M.- A  Petit , Eloge de Desault, in Médecine du Coeur ).
Desde a Renascença, a clínica foi, provavelmente, a primeira tentativa para fundar uma ciência baseada unicamente no campo perceptivo e uma prática guiada pelo exercício do olhar. M.- A Petit: "É preciso, tanto quanto possível, tornar a ciência ocular"(Discours sur la manière d'exercer la bienfaisance dans les hôpitaux, 1797). Na tradição médica do XVIIIº século, a doença se apresentava ao observador segundo os sintomas e sinais.
O sintoma ocupava um lugar especial porque era a forma sob a qual se apresentava a doença. De tudo o que era visível, era o mais próximo do essencial e era a primeira transcrição da natureza inacessível da doença. Os sintomas deixavam transparecer a figura invariável, retraída, visível e invisível, da doença. J.-L.-V. Broussonnet: “Seu conjunto forma o que se chama doença”(Tableau élémentaire de la séméiotique, Montpellier, ano VI). E ainda: “Nós entendemos por fenômeno, toda mudança notável do corpo sadio ou doente; daí a divisão entre aqueles que pertencem à saúde e os que designam a doença: estes últimos confundem-se facilmente com os sintomas ou aparências sensíveis da doença”. Por esta simples oposição às formas da saúde, o sintoma deixava de ser um fenômeno natural passivo e tornava-se representação da doença.
A clínica supunha a visibilidade da doença, o olhar e o objeto entrelaçados pela natureza e pela origem. É o olhar médico que abria o segredo da doença e era esta visibilidade que a tornava penetrável à percepção. O olhar que observava evitava intervir: era mudo e sem gesto. A pureza do olhar do clínico estava ligada a um certo silêncio que permitia escutar: “Toda teoria silencia ou sempre some ao pé do leito do doente”(Corvisart). Também devia ser contido o imaginário, que antecipava sobre o que se percebia, descobria relações ilusórias e fazia falar o que era inacessível aos sentidos. O olhar clínico tinha esta propriedade paradoxal de ler a natureza no momento em que percebia um espetáculo. Ph. Pinel: “Os sinais exteriores pegos do estado do pulso, do calor, da respiração, das funções de raciocínio, de alteração dos traços do rosto, das afecções nervosas ou espasmódicas, da lesão dos apetites naturais, formam, por suas diversas combinações, quadros diversos, mais ou menos distintos ou claramente delimitados...A doença deve ser considerada como um todo indivisível, desde o seu início até o seu término, um conjunto regular de sintomas característicos e uma sucessão de períodos”(La médecine clinique, Paris, 1815).
O exercício da observação clínica abria um novo espaço: o espaço concreto do corpo, massa opaca onde se escondiam segredos, lesões invisíveis e o mistério mesmo da vida. A medicina dos sintomas engendrou aquela dos órgãos e das causas, uma clínica baseada na anatomia patológica, a idade de Bichat.
A medicina só podia ter acesso ao que a fundava cientificamente, contornando, com lentidão, os obstáculos da religião, da moral e dos preconceitos. Isto até se admitir que o cadáver fazia parte, sem contestação religiosa ou moral, do campo da medicina. Morgagni, na metade do século XVIII, não teve dificuldades para fazer suas autópsias. Como o Sepulchretum (Bonet, 1700),  o tratado de Morgagni (De sedibus, 1760) procurava estabelecer que a anatomia patológica fundava a clínica, que as lesões explicavam os sintomas. A concepção era de que a anatomia definia a forma fundamental da espacialização (local) e, por uma relação de contigüidade,  as vias da comunicação fisiológica ou patológica.
A maior descoberta de Bichat (Traité des membranes, 1807 e Anatomie générale appliquée à la physiologie et à la médecine, 1801) foi um princípio para decifrar o espaço corporal, que era ao mesmo tempo intra, inter e trans-orgânico. O elemento anatômico foi deslocado de sua condição primeira na espacialização, que passou a ser o tecido. Bichat comparava a sua descoberta com a de Lavoisier: “A química tem seus corpos simples que formam compostos pelas combinações diversas possíveis...Igualmente, a anatomia tem seus tecidos simples que...por suas combinações formam os órgãos”. Os diferentes tecidos eram as matérias primas dos órgãos, mas os ultrapassavam, formando vastos sistemas nos quais o corpo humano encontrava sua unidade concreta. A análise tecidual de Bichat tornava possível estabelecer formas patológicas gerais, para além das repartições geográficas de Morgagni. A anatomia patológica tinha construído um fundamento sólido: a análise real segundo superfícies perceptíveis. Desenhavam-se, através de uma leitura diagonal do corpo, grandes famílias de doenças, tendo os mesmos sintomas maiores e o mesmo tipo de evolução. Alcançava-se, enfim, um fundamento objetivo, real e indiscutível, de uma descrição das doenças: “Uma nosografia baseada na alteração dos órgãos será necessariamente invariável”(Bichat). Da mesma forma que as nosologias tradicionais começavam por uma definição das classes mais gerais, a anatomia patológica lançava as bases de uma história das alterações comuns a cada sistema, quaisquer que fossem os órgãos ou regiões afetadas.
A questão era como ajustar a percepção anatômica à leitura dos sintomas. Corvisart buscava a confirmação da nosologia pela autópsia: era preciso “comparar sempre os fenômenos sensíveis e próprios da vida saudável de cada órgão, com as alterações que cada um deles apresenta na sua lesão”(Essai sur les maladies et les lésions organiques, du coeur et des gros vaisseaux, 1818). Laënnec seguia a direção inversa: “A anatomia patológica é uma ciência que tem por objetivo o conhecimento das alterações visíveis que o estado doentio produz sobre os órgãos do corpo humano. A abertura de cadáveres é o meio de adquirir este conhecimento; mas para que tenha uma utilidade direta...é preciso juntar a observação dos sintomas ou as alterações de funções que coincidem com cada espécie de alterações de órgãos”(Article Anatomie pathologique, Dictionnaire des Sciences Médicales).
Com a anatomia patológica, a relação médico-paciente tornou-se uma experiência na qual o olhar do médico era o elemento decisivo do espaço patológico e  de sua armação interna. O contato não era possível senão sobre o fundo de uma estrutura, onde o medical e o patológico se entrelaçavam, do interior, na plenitude do organismo. A medicina e a cirurgia não eram mais que uma só e mesma coisa, na medida em que o deciframento dos sintomas se ajustava à leitura das lesões.
O olhar médico passou por uma verdadeira “revolução”(a medicina das reações patológicas) com o tratado de Broussais, em 1816, Examen de la doctrine. Nele foi exposto um método clínico aplicado ao agravo orgânico, que propunha “extrair da fisiologia os traços característicos das doenças e discernir, por uma análise cuidadosa, os apelos muitas vezes confusos dos órgãos doentes”. Esta medicina de órgãos afetados comportava três momentos: 1) Determinar qual órgão estava em sofrimento, o que se fazia a partir dos sintomas manifestos; 2) “Explicar como um órgão entrou em sofrimento” e 3) “Indicar o que é preciso fazer para que deixe de sofrer”. Broussais tinha fixado o último elemento da “maneira de ver” do clínico.
 A evolução histórica e concreta do olhar médico moderno havia acabado a sua estruturação.

II. A Tradição Clínica e  os seus Efeitos:

Vamos revisitar o texto de Foucault e procurar extrair, a partir da proto-clínica do XVIII* século, os efeitos sob o conhecimento, as habilidades e as atitudes do médico nos dias de hoje.
Vimos que na Renascença ocorreu uma verdadeira mutação do saber médico, com a recusa das teorias, o abandono dos velhos sistemas e da metafísica da Idade Média. Em seu lugar, passou-se a valorizar o empírico, a experiência clínica. Era o início da Ciência moderna, que nos dias atuais tem sua expressão mais estruturada na chamada Medicina de Evidências. O termo “evidência” expressa o que é comprovado cientificamente, o que é demonstrado experimentalmente.
Esta é a habilidade essencial que foi transmitida desde a proto-clínica: observar as evidências, o que pode ser percebido. A advertência subtendida nesta instrução é de que deve ser contido o imaginário, a teoria, o que é inacessível aos sentidos. A prática deve ser baseada no exercício do “olhar”.
Isto está emblematicamente expresso na chamada “Observação clínica”, o roteiro de sistematização das informações sobre o paciente, através de seu depoimento a respeito de seu estado interior, o interrogatório de seus antecedentes patológicos e familiares, de seu perfil pessoal, dos diversos aparelhos do organismo, o exame físico e os exames complementares. Nas palavras de J.-Ch, Sournia: “Para poder propor a cada um de nossos doentes um tratamento perfeitamente adaptado à sua doença e a ele mesmo, nós procuramos ter uma idéia objetiva e completa de seu caso, reunimos num prontuário que lhe é pessoal (sua “observação”) a totalidade de informações que dispomos sobre ele. Nós o “observamos” da mesma maneira que nós observamos os astros ou uma experiência de laboratório”(Logique et morale du diagnostic, Paris, 1962).
Este “olhar” ingênuo, porque baseado unicamente na modéstia do percebido e não nas construções imaginosas da mente, redescobre a doença no lugar natural da vida: a família. E a Medicina de Família recupera a prática do clínico,  velha de três séculos, de  tratar a domicílio.
O olhar clínico, -além de herdar uma “ordem pela qual os objetos devem ser observados para serem melhor percebidos e gravados na memória”-, prossegue com o hábito de recolher os sinais e os sintomas da doença. O doente é a fonte primária das informações, que são processadas pelo observador. Seu discurso dá acesso à percepção que possui do próprio corpo e de suas alterações. O exame “físico”(em inglês, médico é “physician”), método de investigação do espaço concreto do corpo, guarda toda sua centralidade enquanto exercício da habilidade do clínico na identificação dos sinais patológicos, mesmo com todos os avanços científicos dos exames complementares. É uma etapa indispensável da experiência clínica, usando praticamente os mesmos meios que a invenção de Laënnec (Traité de l’auscultation médiate, Paris, 1819).
No plano do conhecimento, a influência da medicina classificadora, calcada no modelo botânico, perpetuou-se até hoje. O conhecimento das doenças, apesar do acúmulo de informações, é um saber indispensável para o clínico. O trabalho investigativo, desde a primeira olhada na aparência do paciente, desencadeia o raciocínio clínico e constitui um váivem entre as informações colhidas e a memória do aprendido pelo médico. Cada caso é a montagem de um quebra-cabeças e, com o auxílio de um raciocínio hipotético-dedutivo, o clínico vai estabelecendo a relação entre os fenômenos, comparando com o que sabe, até descobrir a doença -isto é, nomear o diagnóstico e aí sim, estabelecer a terapêutica.
A atitude do médico foi se cristalizando até chegar ao papel social de um observador neutro, com a atenção voltada para a doença e os seus múltiplos disfarces. Este investigador das pistas que o levam a identificar o mal que acomete ao doente, incorre, por vezes, no erro de “esquecer” a pessoa por detrás da doença. Tal é o risco a que o expõe o personagem que encarna, e que foi moldado através de pelo menos três séculos.
Então, o clínico adquiriu uma segunda natureza que o condicionou a aceitar somente o que passa pelo crível do empírico, da percepção. Uma das mais poderosas influências que herdou, foi a valorização do conhecimento extraído da morte e consubstanciado na anatomia patológica. A autópsia permitiu que o olhar clínico penetrasse no espaço interno do corpo, para aí constatar as lesões nos órgãos.
Chegamos, pois, ao comentário de Foucault: “o cadáver aberto e exteriorizado é a verdade interior da doença, é a profundidade exposta da relação médico-paciente”. Nele estão sintetizados os principais efeitos da tradição clínica sob o médico de hoje: a habilidade aguçada da percepção (o olhar clínico), o conhecimento racional do “espetáculo” da doença, em toda a sua crueza concreta, e a atitude neutra de observador/investigador dos fenômenos patológicos do corpo humano.

1. Os Problemas Psicológicos na Prática Médica:

Os generalistas foram habilitados em seus cursos médicos para lidarem com os distúrbios orgânicos, mas quando se deparam com as dificuldades emocionais de seus pacientes, acham-se despreparados para resolvê-las. Esta é a necessidade que levou aos seminários sobre “problemas psicológicos em medicina clínica”, organizados pelo pioneiro dr. Michael Balint, psiquiatra e psicanalista.
Vejamos os resultados da investigação sobre este tema, efetuada por M. Balint e compilada em sua obra: “O Doutor, o seu Paciente e a Doença”(  ). Esta pesquisa levou mais de 5 anos, na Tavistock Clinic (Londres), e foi feita com quatorze generalistas.
A constatação inicial foi a mesma que já tinha sido feita nos primórdios da clínica: existe uma clivagem entre a ciência médica tal como é exercida nos hospitais e a prática geral que se faz no consultório do generalista.
Os especialistas -professores dos generalistas nas escolas de medicina-, preferem diagnosticar doenças físicas no âmbito de suas especialidades, até porque atendem pontualmente.
Nos consultórios dos generalistas, os problemas dos pacientes apresentam-se, muitas vezes, sob a forma de “uma doença da pessoa inteira”. Os casos analisados revelam que algumas pessoas não conseguem enfrentar as dificuldades de suas vidas e "escapam" ficando doentes.
A estimativa é de que pelo menos um quarto dos pacientes consultados sejam casos psicológicos. Se o médico tem a oportunidade de vê-los no início do processo patológico, pode perceber que tais pacientes "oferecem" ou propõem diversas doenças, até que se fixam a uma doença precisa e “organizada”. As doenças descritas pelos “rótulos” da medicina hospitalar não são que sintomas superficiais, que não ajudam o generalista a compreender os verdadeiros problemas com os quais se defronta. 
No entanto, os generalistas -influenciados pelos especialistas-, evocam preliminarmente um diagnóstico “orgânico”, mesmo quando as evidências apontam para um problema psicológico. Os médicos consideram que a doença física é mais séria e mais perigosa que uma doença funcional. Conhecem melhor as patologias orgânicas e sentem-se mais seguros, num terreno mais firme, do que diante de alterações funcionais ou neuróticas. As doenças são catalogadas numa sorte de classificação hierárquica, correspondendo à gravidade das lesões anatomopatológicas.
 Cada médico tem um modelo ideal do comportamento que deve adotar uma pessoa quando está doente. Esta missão ou “função apostólica” expressa-se em sua conduta. Trata-se da tendência do médico de alimentar expectativas ilusórias sobre o paciente, baseadas em seus próprios valores. Espera enquadrá-lo num diagnóstico e “convertê-lo” às virtudes da medicalização.
O roteiro habitual seguido pelo generalista é dominado pelo mêdo de deixar passar alguma doença física. Utiliza-se de duas estratégias securizantes: os exames complementares e a referência a especialistas.
 A “eliminação por exames físicos apropriados” constitui uma rotina obrigatória na prática diária. O método de escolha é pedir exames complementares à exaustão, até que um sinal físico acidental, e muitas vezes sem significação, possa ser responsabilizado pela sintomatologia. Esta “resposta” do médico tem a (grave) conseqüência iatrogênica de induzir, de ajudar o paciente a “organizar” sua doença em torno do desvio encontrado. O passo seguinte será convencer o paciente da utilidade da prescrição para os seus sintomas, embora precise de algo diferente.
O outro recurso utilizado pelo generalista diante de um "caso difícil" é o de encaminhar o paciente ao(s) especialista(s) para um diagnóstico mais preciso(perpetuação da relação professor-aluno). Em toda situação deste tipo, em que o paciente “oferece” um enigma ao generalista levando-o a pedir ajuda ao(s) especialista(s), ocorre uma "colusão no anonimato" ou de “diluição de responsabilidades”. O sentido desta expressão é de que os pacientes podem ir a diferentes especialistas, sem que ninguém assuma a responsabilidade pelo paciente enquanto pessoa. O doente vira um prontuário impessoal, freqüentemente circulando entre diferentes especialistas, que também se confundem diante de um quadro rebelde a se encaixar nos rótulos ou esquemas. O generalista, que não deveria deixar de conhecer as consequências das condutas dos especialistas, acaba por delegar suas responsabilidades. Assim, podem ser tomadas decisões vitais -às vezes após terem sido consultados diferentes especialistas-, sem que ninguém se sinta plenamente responsável. 
Os pacientes, cujos distúrbios possam ser atribuídos a prováveis alterações anatômicas ou fisiológicas, são de uma categoria superior, enquanto os neuróticos engrossam o contingente do que sobrou, feito o diagnóstico diferencial. O generalista orgulha-se de ter despistado uma doença física, mas incomoda-o defrontar-se com uma neurose. Está despreparado para lidar com os problemas psicológicos. Diante da angústia e da pressão crescente do paciente, pode mesmo se sentir culpado: seus exames mais criteriosos não esclareceram a "doença" e o tratamento atualizado que instituiu, não trouxe o alívio esperado. O paciente, por sua parte, quer saber o nome da sua doença, o diagnóstico, porquê a medicação não funcionou. Diante desta demanda, recebe como resposta que "nada tem", o que equivale a ter a sua "oferta" rejeitada e a ficar com o seu problema não resolvido.
Quais as propostas de Balint para sair deste imbróglio?
A solução já estava contida em sua tese inicial, exposta acima: “Nós pensamos que certas pessoas que, por uma razão ou por outra, não podem enfrentar os problemas de suas vidas, se livram ficando doentes”.
O generalista deve ter discernimento para saber quais são os casos em que é essencial tratar uma doença física e quais os que precisa ajudar o paciente a lidar com os seus problemas pessoais. 
Para chegar ao nível de desvelar o que está oculto, é preciso que o generalista proceda a um diagnóstico “aprofundado”, isto é, que contemple os problemas da personalidade global. A metodologia a seguir, “a entrevista prolongada”, implica na habilidade da “escuta” por parte do médico.
 É necessário ampliar os limites da anamnese padrão -sem deixar de reconhecer o valor das informações pertinentes assim obtidas-, porque “aquele que faz perguntas obtém respostas, mas nada além disso”.
O generalista, responsável pelo paciente, deve estar em condições de acompanhar o curso de sua história de vida, de forma a poder contextualizar uma eventual doença psicológica. Só assim pode alcançar uma ampla compreensão das “ofertas” de seus pacientes, ou seja, fazer um diagnóstico “aprofundado”. Trata-se de bem “administrar” o “fundo mútuo de investimento”, isto é, toda a experiência e a confiança compartilhadas entre o médico e o paciente, que foram acumuladas durante muitos anos de convívio.
O remédio “médico” –o doutor em si mesmo é uma poderosa medicação- é sempre importante, mas pode ser decisivo para a cura daqueles episódios em fases precoces “desorganizadas”. Muitos casos poderão ser solucionados nesses estágios, tornando desnecessário o encaminhamento para  psicoterapia com um psicólogo/ psiquiatra.
Resta abordar a questão de como os generalistas podem adquirir o mínimo de aptidões para lidar com os problemas psicológicos de seus clientes.
Paradoxalmente, comecemos por compreender porquê, psicologicamente, evitam explorá-los. Deixemos de lado a questão de sua formação voltada para o “orgânico” ou o seu despreparo para o manejo psicológico. A explicação do autor é que quando uma pessoa está doente fisicamente, o clínico está numa situação diferente e distante de sua condição, embora se solidarize com ela. Mas quando o paciente está infeliz em sua relação com o mundo, o médico pode se sentir pessoalmente implicado, devido a seus próprios problemas. Procura, a partir daí, evitar situações que poderiam levá-lo a examinar seus conflitos pessoais.
Segue-se que o generalista tem a necessidade de “uma mudança de personalidade considerável, ainda que limitada”. Como obtê-la?
Balint propõe como método seminários de grupo, de oito generalistas coordenados por um psiquiatra, em encontros semanais. O número foi fixado para proporcionar uma participação intensa e um material suficientemente diversificado. Isto porque se trata de provocar uma nova atitude no médico, o que implica em expô-lo à situação real e levá-lo a reconhecer os problemas e as formas que podem ser empregadas para tratá-los. As discussões semanais de casos são a matéria prima donde se analisa a relação de cada generalista com os seus clientes. É possibilitado ao generalista, que assim o desejar, uma supervisão individual de seus casos, ou seja, uma hora por semana de “entrevista particular”.
Um objetivo é desenvolver nos médicos suas sensibilidades diante dos problemas emocionais de seus pacientes, de modo que possam compreendê-los melhor e com maior profundidade. O outro objetivo é ajudá-los a aprender a empregar esta compreensão de forma a obter um efeito terapêutico. Para alcançar estes objetivos é indispensável modificar a personalidade do médico, particularmente quando atua no exercício profissional. Deve aprender a perceber e a tolerar os fatores emocionais em seus pacientes, que antes rejeitava ou ignorava, além de aceita-los como dignos de sua atenção. Balint chamou a totalidade deste processo “mudança de personalidade limitada, todavia significativa”.
A essência do método de capacitação, o “grupo Balint”, é o seguinte:

  1. fazer com que o médico tome consciência de toda sua responsabilidade terapêutica, cerceando-lhe qualquer rota de fuga;
  2. comparar sua maneira de tratar a seus pacientes com a de outros colegas do seminário;
  3. utilizar o grupo para demonstrar que toda terapia necessariamente implica um tipo específico de interação entre o paciente e o médico.

O foco está centrado no subjetivo e pessoal, muitas vezes fora do controle consciente. O mais importante nos seminários de grupo é a análise da relação médico-paciente, mas também são consideradas as relações do médico com o coordenador e com o grupo de colegas. É a chamada “contra-transferência”, isto é, as formas como o generalista utiliza sua personalidade, suas crenças, seu saber, seus modos habituais de reação, etc. As discussões dos seminários fornecem o motor da “mudança de personalidade considerável, ainda que limitada”. O que se produz durante os seminários é que o generalista toma consciência de seu envolvimento pessoal e de suas resistências em suas relações com o paciente e com o resto do grupo.
Estes seminários podem levar de 2 a 3 anos, em sessões semanais, capacitando o generalista a tratar uma grande parte dos seus pacientes com problemas psicológicos. Habilitam-no a impedir, com uma intervenção precoce, o paciente a “organizar” sua doença em torno de qualquer sinal físico de pouca importância. A profundidade da penetração do generalista no conflito do paciente depende de sua própria personalidade, isto é, de sua função apostólica. Assim, pode chegar a identificar o “conflito” que levou o paciente a se queixar, descobrindo o verdadeiro problema em sua vida. Em outras palavras, o generalista é capaz de manejar com competência o “remédio médico”.
Por último, conheçamos a avaliação do método dos seminários de discussão em grupo para os generalistas. Entre os chamados “desertores”, aqueles que abandonavam os seminários após certo tempo, podem ser descritos os seguintes grupos: 1) os médicos que padeciam de uma patologia mental grave (neurose severa ou borderline; 2) os “superiores”, médicos prestigiosos, de profundo “fervor apostólico”, como possível defesa contra a insegurança; 3) os médicos escrupulosos e sensitivos, que necessitavam de “receitas” para as situações; 4) os médicos com uma ansiedade neurótica diante da mudança e 5) os médicos com defesas sólidas e eficazes, que preferem evitar uma série de temas.
Pode-se dizer que os generalistas que acompanharam até o fim os seminários, eram médicos “natos” ou muito talentosos, que experienciavam uma satisfação “profunda” no exercício profissional. 
Citemos, por fim, dois depoimentos de generalistas que participaram dos grupos Balint (Journal of the Balint Society, vol. 30, 2002): “O maior benefício veio de escutar as estórias das relações médico-paciente contadas pelos outros participantes do grupo” (Lesley Southgate); e ainda, “Acredito que os seminários tornaram-me melhor em meu trabalho...Posso afirmar, com certeza, que me ajudaram a lidar com menos ansiedade com pessoas diferentes ou difíceis”(John Horder). Os seminários permitiram aos médicos realizar que as pessoas “difíceis” eram suas semelhantes, que estavam pedindo ajuda e não tentando criar situações sem saída.
Mas, “para se beneficiar de um grupo, você precisa de pelo menos 2 anos de tratamento- quis dizer capacitação” (M. Balint).

1. Conclusões:

A moderna concepção sobre a etiologia das doenças é a de que muitos fatores interagem para produzi-las (Biopsychosocial Model of Disease,  Engel, 1977, in A Report of the Surgeon General). De acordo com o modelo de Engels, os fatores biopsicossociais estão envolvidos nas causas, manifestações, curso e evolução da saúde e das doenças. Os papéis relativos dos fatores biológicos, psicológicos ou sociais podem variar entre os indivíduos ou entre os períodos da duração da vida.
Procuramos demonstrar, ao longo deste trabalho, que os médicos possuem “pontos cegos” em relação aos fatores psicológicos e sociais, privilegiando os biológicos, devido à sua formação.
Mostramos que os fatores estressantes psicológicos e sociais podem se “disfarçar” em distúrbios somatomorfos, escondendo-se atrás dos sintomas e que os esforços terapêuticos serão de utilidade duvidosa se as verdadeiras causas não forem abordadas.
Os fatores estressantes psicológicos e sociais mais comuns na vida adulta abrangem a ruptura de relações afetivas íntimas, a morte de um familiar ou amigo(a) próximo(a), as dificuldades econômicas,  a saúde física precária e  os acidentes e  a violência atingindo a integridade física. Estes fatores desencadearão distúrbios em pessoas vulneráveis, isto é, com maior risco de adoecer.
Propusemos o grupo Balint como um método que capacita os médicos generalistas a lidar com as emoções na prática médica, através de uma “pequena, mas significativa mudança de personalidade” (Balint).

Referências Bibliográficas

  1. Weitbrecht, H. J. Errores del diagnóstico psiquiátrico en la práctica médica. Barcelona. Ediciones Toray, S. A. 1* ed.1968.
  2. Foucault, M.  Naissance de la Clinique, Paris. Presses Universitaires de France.1* ed.1963.
  3. Balint, M. L e  médecin, son malade et la maladie. Paris. Éditions Payot & Rivages. 3* ed. 1996.
  4. Balint, M., E. Balint et al. La capacitación psicológica del médico.Barcelona. Editorial Gedisa S. A. 1* ed. 1984.
  5. Cutler, P. Como solucionar problemas em clínica médica. Rio de Janeiro. Editora Guanabara Koogan S. A. 3* ed.1999.
  6. Tierney,Jr., L. M., McPhee, S. J., Papadakis, M. A. Medical Diagnosis & Treatment. Stamford. Lange Medical Publications. 35* ed. 1996.

 

Topo da Pagina topo da páginaNas Entranhas do Minotauro

A duplicidade do Estado brasileiro pode ser representada pela figura do Minotauro: híbrido na combinação de dominação patrimonial e dominação racional-legal (Max Weber). Um terceiro tipo surgiu, inesperadamente, na cena nacional. A Teologia da Libertação, “a primeira produção teórica nascida na periferia do cristianismo” (Leonardo Boff), funda um novo modelo de coordenação: o comunitário. A TL é crítica quanto às instituições tradicionais ou burocráticas e “a cultura dominante, por seu caráter autoritário e centralizador”.

Proponho, agora, uma viagem através do Minotauro, por meio de minha experiência enquanto operador (médico), no segmento especializado em saúde do Estado.

Quando fui generalista na ponta do sistema, entrei em conflito com uma forma de dominação tradicional. O hierarca adotava um estilo gerencial policialesco, regendo a unidade de saúde com a disciplina de um exército prussiano. Era impregnado por valores do autoritário conservadorismo popular. Apossou-se do Centro de Saúde como um feudo próprio (patrimonialismo) e assegurava seu poder através do medo e da punição. Era um “revival” do pesadelo da Ditadura Militar.

Em outra instituição, de caráter híbrido, pude perceber a resistência do poder tradicional médico a se submeter a uma coordenação pela padronização de habilidades (protocolos), típica da dominação racional-legal.

Em organizações do terceiro tipo (alternativo), a forma comunitária levava à dissolução do sistema funcionalmente diferenciado (Niklas Luhmann), próprio da sociedade da informação. Existiam instâncias de dominação que eram o colegiado gestor e a coordenação, esta coincidindo com a hierarquia formal. O poder era baseado na associação e não no conhecimento. Era como se um triturador nivelasse as diferentes funções no “sopão” da igualdade. Havia uma inibição do profissionalismo e, como efeito perverso, a exacerbação do personalismo, “espinha dorsal de nosso sistema social” (Roberto DaMatta). O universo da casa, das simpatias pessoais, tinha efeito corrosivo sobre as regras instituídas.

Pode-se aventurar a conjecturar que estes três tipos de coordenação comporiam o esqueleto, respectivamente, do Estado Patrimonial, do Burocrático-Legal e do Socialista católico. Haverá um hegemônico ou o destino será teratológico?

Belo Horizonte, abril de 2011.

 

Topo da Pagina topo da páginaReflexões Sobre a Base da Nova Pirâmide

Os info-proletários, os operadores dos serviços de informática nos “call-centers”, são jovens (na faixa dos vinte), com educação secundária, com expectativas de outros trabalhos e/ou de curso superior. Sua sociabilidade é adquirida através da família, da escola e dos meios de comunicação de massa.

Na interpretação do historiador Prado Júnior, a família patriarcal brasileira não teria desempenhado a contento a sua função de formadora do caráter de indivíduos morais. Negligente na esfera moral, era tolerante com a promiscuidade, com a instabilidade das relações sexuais e com a indisciplina mal-disfarçada na "hipócrita submissão, puramente formal, ao pai e chefe".

Os professores constituem o nó estratégico da má qualidade de ensino. A sua formação é de baixa qualidade, o que leva os alunos a não aprenderem as matérias fundamentais como o português e a matemática.

Para o jornalista Eugênio Bucci, “O telejornalismo é a televisão em viagem de negócios; as novelas são a televisão a passeio. O primeiro cai no ridículo pelo formalismo; as segundas, pelo espalhafato. Um tem que esconder a incorreção; as outras fogem desesperadamente do que seja apenas correto. O telejornalismo, quase sempre, mostra o mundo como o dono da emissora gostaria que ele fosse; as novelas vão bem quando exibem o mundo tal qual o telespectador deseja que ele possa ser.”

Há muita vulgaridade nas novelas, uma pornochanchadização. Bucci, tomando uma como exemplo, mostra que “emprega os apelos bem típicos das pornochanchadas, que misturavam um certo deboche a imagens ou falas “eróticas” menos finas.”

Com estas matrizes de sociabilidade, o que se pode esperar do comportamento e da mentalidade dos info-proletários? Nestes tempos de democracia de massa, um traço forte é a licenciosidade: o ambiente de trabalho é transformado no espaço de casa. O profissionalismo é abandonado em prol de uma irreverência no trato com a autoridade, um laxismo com os horários e com as tarefas e a vulgaridade impera no trato interpessoal.

Este pequeno quadro, na base da escala social dos serviços, aponta para a ingovernabilidade, a ruína econômica e para a resposta autoritária no longo prazo.

Belo Horizonte, maio de 2011.


 

 

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