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Eunice Arruda
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Veja também a apresentação virtual de Alguns (Poemas Selecionados de Eunice Arruda)* e o livro virtual de suas Poesias*.

Eunice Arruda
 
Haicais

Poesias
 
enganos
versos brancos

 

Abertura

Coletânea de poesias e haicais de autoria de Eunice Arruda selecionados por Claudia Houdelier.

 

Topo da Pagina topo da páginaCurrículo Literário

Pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Prêmio no Concurso de Poesia PABLO NERUDA, organizado pela Casa Latinoamericana, Buenos Aires, Argentina, 1974. Presença em antologias, com poemas publicados no Uruguai, Colômbia, França, Estados Unidos, Canadá. Fez parte da diretoria da União Brasileira de Escritores e do Clube de Poesia de São Paulo. Ministra oficinas de criação poética desde l984, em locais como a Biblioteca Mário de Andrade e a Oficina da Palavra (Secretaria de Estado da Cultura). Coordenou os projetos Tempo de Poesia/Década de 60 em l995 e Poesia 96/97, promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Por tais iniciativas recebeu o prêmio de Mérito Cultural em 1997 conferido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, RJ. Foi homenageada com o prêmio Mulheres do Mercado, concedido pela Casa de Cultura de Santo Amaro – São Paulo/SP, 2005. Em 2006, fez leitura de poemas para o programa Momento do poeta – Instituto Moreira Sales (IMS) – SP.

Eunice Arruda, poeta, autora de doze livros publicados:
É tempo de noite. São Paulo, Massao Ohno, 1960./ O chão batido. São Paulo, Coleção Literatura Contemporânea, nº 7, 1963./ Outra dúvida. Lisboa, Panorâmica Poética Luso-Hispânica, 1963./ As coisas efêmeras. São Paulo, Ed. do Brasil, 1964./ Invenções do desespero. São Paulo, edição da autora, 1973./ As pessoas, as palavras. São Paulo, Ed. de Letras e Artes, 1976 (1.ed); São Paulo, Ed. do Escritor, 1984 (2.ed)./ Os momentos. São Paulo, Nobel-Secretaria de Estado da Cultura, 1981./ Mudança de lua. São Paulo, Scortecci, 1986 (1.ed.); 1989 (2.ed.)/ Gabriel, São Paulo, Massao Ohno, 1990./ Risco. São Paulo, Nankin Editorial, 1998 (Prêmio Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores, RJ/RJ)./ À Beira. Rio de Janeiro, Blocos, 1999./ Há estações (haicai). São Paulo, Escrituras Editora, 2003 – selo Programa Nacional do Livro Didático.

 

Topo da Pagina topo da páginaHaicais

Noite outonal!
Minha avó contando histórias
Na varanda. Agora


À beira do lago
aliso o brilho da lua
com as mãos molhadas


Noite estrelada
O céu - brilhando - se abaixa
Silenciosamente


No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo


Estático vôo
Borboletas de asas abertas
Alfinetes nas costas


Noite de junho
O balão subindo colorido
Alegre despedida


Solidão no inverno
o velho aquece as mãos
com as próprias mãos


Fiapos nos dentes
o rosto todo amarelo
É tempo de manga


Verão. Meio-dia
Na sombra de uma nuvem
o boi cochila


Sobre a folha seca
as formigas atravessam
uma poça d'água

Árvore cortada
No tronco tão machucado -
O verde brotando.

Malas nas mãos.
Nos olhos tantas lágrimas.
Casa inundada.

Foi tão rica a safra!
Até os arrozais se curvam
Em reverência.

Estrela de inverno
Embora distante e fraca
Procura brilhar.

Primavera. Chuva.
A moça de rosto molhado:
sombrinha furada.

Dentro da lagoa
uma diz "chove", outra diz "não":
conversa de rã.

 

Topo da Pagina topo da páginaTambém os Mortos

Também os mortos
me acompanham

Entre um e outro
degrau

Paramos. Como quem
descansa um fardo

Ao cair da tarde
— xale vinho aquecendo o corpo —
os mortos me acompanham

Entre um e outro
degrau

Mas
não me toquem — ainda
                              estou sonhando —
...

 

Topo da Pagina topo da páginaErro

Edifiquei minha vida
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço.

 

Topo da Pagina topo da páginaTema

Deliberadamente
utilizamos
todas as zonas erógenas
submissos

aos animais
que transitavam a pele
submissos
a nossa disponibilidade
imerecida
sacudida
por buzinas
chuvas repentinas confundindo
as marcas de um caminho já
percorrido

Deliberadamente
entre suor e grunhido
molhado
o ritual foi cumprido

Só entao nos devolvemos

 

Topo da Pagina topo da páginaObservando

Sim

as horas de trégua

quando se afiam
as facas

 

Topo da Pagina topo da páginaUm Visitante

Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

 

Topo da Pagina topo da páginaRisco

Um poema livre
da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não

 

Topo da Pagina topo da páginaO Enforcado (Arcano XII)

Ainda assim
bebo o úmido
da seiva

Ainda assim
— estômago na boca —
mastigo o alimento
da terra

Pressentindo as raízes.

 

Topo da Pagina topo da páginaPropósito

Viver pouco mas
viver muito
Ser todo o pensamento
Toda a esperança
Toda a alegria
ou angústia - mas ser

Nunca Morrer
Enquanto viver

 

Topo da Pagina topo da páginaRetorno

Esse turbilhão que grita
agita
é gente
De coração
de mais tristeza - quem sabe - do que

nós

E a gente não ouve
não quer ouvir
Quer esquecer
quer não pensar
Mas a gente pensa

a gente envelhece muito quando volta

(do livro “É tempo de noite” - Massao Ohno Editora, 1960 – São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaHora Poética

Para esquecer esta
dor
- transformá-la em poesia

Para eternizar esta
dor

- transformá-la em poesia 

(do livro “O chão batido” – Coleção Literatura Contemporânea nº 07 – 1963 - São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaAmpliação

Construo o poema

peda-
ço por
pedaço

Construo um
pedaço de
mim
em cada poema

(do livro “As coisas efêmeras” – Brasil Editora – 1964 - São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaAs Praias

As praias brancas
desertas
cansaram-se dos beijos do mar
Elas
estendem-se agora
preguiçosas
lânguidas
perdidas na rotina branca
das areias

As praias estão exaustas
dos afagos
do mar
Por isso elas são frias
e fazem castelos
em suas areias:

para o tempo passar

 

Topo da Pagina topo da páginaSombra

Há uma mulher triste dentro da noite
com meus olhos
com meu rosto
com  minha angústia

Do dia impregnado de promessas
restou apenas uma mulher
Só mulher

Uma mulher ficou triste dentro da noite
triste
sentindo o frio gelando-lhe a vida
sem esperança

Há uma mulher triste dentro da noite
com  meus olhos
com meu rosto
com minha angústia

Oração e sono para ela

 

Topo da Pagina topo da páginaComposição I

Criar impactos
com
palavras

Pérolas
deslizando
na correnteza

Como barcos
me transportam
aonde nenhuma viagem chega
e eu colho frutos raros
Nesta ilha – entre
pedras – ressuscito

Com o fôlego
das
palavras

 

Topo da Pagina topo da páginaUm Dia

um dia eu
morrerei
de sol, de
vida acumulada
na convulsão
das ruas

um dia eu
morrerei e
não
podia:

há poemas
escorregando de meus dedos
e um vinho não
provado

 

Topo da Pagina topo da páginaGeografia

estar em
algum lugar

sempre

deixar o
corpo
posto
em algum lugar

porto
onde voltar

 

Topo da Pagina topo da páginaSentença

Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas

E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir  mais
saboreá-los

(do  livro “Invenções do desespero” - Edição da autora – 1973, São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaOlhe as Pessoas

Olhe as pessoas
como são
suaves

Mas não se aproxime
têm garras
arranham o coração

Fique em seu quarto
em seu corpo
e
apenas

olhe as pessoas

(do livro “As pessoas, as palavras” Editora de Letras e Artes, 1976 – São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaNo Final

gestos alheios
desataram os laços
salas fechadas recenderam
flores pétalas
esmagadas

E o silêncio correu água fria nas veias

no final
os golpes acertaram melhor

(do livro “Os momentos” - Editora Nobel/Secretaria do Estado da Cultura, 1981 – São Paulo - SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaNotícias

As crianças morrem

Em piscinas
lagoas
no centro da cidade

O corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas

As crianças
elas também nos abandonam

(do livro “Mudança de lua” - Scortecci Editora, 1986  – São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaGabriel:

Era um anjo
omisso

Foi insubmisso
sem ter dito não

Sem anseio para o vôo
nem loucura para o plano
era um anjo vago

Que não optou
Entre o ser azul
celeste e a doce
lei da gravidade

Era um anjo
omisso
ou
de asas machucadas

(do livro “Gabriel:” - Massao Ohno Editor, 1990 – São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaSaciedade Biográfica

Tenho andado sem pés
voando sem asas
Sou um sonho espalhado

Os rios recebem minhas cartas
com freqüência
facas me apontam o coração

O que poderia dizer
(os pássaros já cantaram)
o que poderia amar
(os amantes se suicidaram)

Os assassinos conhecem o meu nome

(do livro “Risco” -  Nankin Editorial, 1998 – São Paulo – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaPaisagem

Ser tão

nas ruas

Sertão

nas ruas

(do livro “À beira” - Editora Blocos, 1999 – Rio de Janeiro – RJ)

 

Topo da Pagina topo da páginaTão Tranquila

Tão tranqüila a sala
A tarde caminha lenta impune
Portas fechadas
ressoam vozes
lá fora
um telefone jamais chama

Talvez chova ainda hoje
mas agora
nenhum risco ou relâmpago
Posso dormir neste barco
há árvores à margem sombreando o rio

É tão tranqüila a sala
na tarde seguindo lenta
E vibra
ardente
como uma palma de mão
Aqui descanso do sim e do não

(do livro "Risco" - Nankin Editorial, 1998 – SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaAmor

Num poço escuro
             no escuro
respiro teu rosto
             tua boca
aberta em dentes
                 flores
coloridas dançam
sobre meu corpo
se espalha
a água
de muitas fontes

Por um momento a vida me aceita

(poema incluído na Antologia Os dias do Amor)

 

Topo da Pagina topo da páginaSpleen

Fala baixo
baixinho
Apaga a luz
e deixa a vitrola em surdina
 
 
É pena que não tenho cigarros
nem amor

para te dar

 

Topo da Pagina topo da páginaAmor de Gente Velha

Vou ensaiar um
jeito de
te amar
Sentirás
este céu mais lindo
a vida menos pesada
embora o lirismo esteja
ultrapassado
Mas que importa somos poetas
Só sabemos
inventar
Eu te prometo amor
que vou
fabricar no coração
Será quase igual àquele
que perdi um dia
e tu perdeste em outro
mas que importa somos poetas

Somos velhos

 

Topo da Pagina topo da páginaBoneca de Pano

Enterraram a boneca
a boneca de
pano
Era trapo
Era nada
Enterraram a boneca
Agora enterro
a unha na terra
e a boneca
hoje de carne

grita

 

Topo da Pagina topo da páginaConceito

Morrer
é somente ver
a vida morta

e viver

 

Topo da Pagina topo da páginaAntecipação

Amanhã serei
feliz
feliz
feliz
Porém nunca como agora
que espero ser
feliz
feliz
feliz

 

Topo da Pagina topo da páginaDeus e o Domingo

Eu ia ser feliz
domingo
Naquele tempo bastava pouco
Não sabia que no
domingo
é fácil
chover
e muito difícil viver
Ah, eu ia ser feliz
Mas
domingo Deus descansa
e a gente sofre mais

 

Topo da Pagina topo da páginaPoemas

Eram poemas tristes
mas
poemas
Mesmo assim não os
quiseste
Por isso a noite se
fez escura
E os poemas
que eram poemas tristes
mas poemas
voltaram a ser outra vez

lágrimas

 

Topo da Pagina topo da páginaDa Finalidade do Trabalho

Não trago mensagem
na voz
Quando escrevo
é a vida que
exercito
para
que
tudo o que exista
em mim fique
escrito
Por isso não trago
mensagem na voz
É missão de
quem escreve
apenas eternizar o que foi

breve

 

Topo da Pagina topo da páginaPredição

Fazer da
busca o
ideal
Rasgar o ventre de
todas as noites
para encontrar
aurora
            que não somos hoje
            é o que há de nos
            esmagar
            amanhã

 

Topo da Pagina topo da páginaIdentificação

Nossa vida se desfaz em
cacos
A cada instante somos
diferentes
Mas a voz que pede
é sempre a
mesma

Então nos reconhecemos


Topo da Pagina topo da páginaDas Coisas Efêmeras

Olho a tarde
a tarde
acaba
 
 
O amor o
amor
acaba
A vida
sim

é que é imensa

 

Topo da Pagina topo da páginaImprudência

Mesmo que
depois
chova

Este sol é bom

 

Topo da Pagina topo da páginaAflição

Fui o amanhecer
para tuas
noites
voz
para teu silêncio

Sem saber como


Topo da Pagina topo da páginaCartão Postal

Guarda o
olhar desta
primavera
Amanhã
a gente usa

como lembrança


Topo da Pagina topo da páginaFotografia

Éramos nós
sentados
esperando ser ultrapassado
ponto mais dorido da noite da vida

 

Topo da Pagina topo da páginaEnganos

Uma
luz
me aproximo
é escuridão
Brilha
agora em ouro
o que ontem foi

pó e não


Topo da Pagina topo da páginaQuero

Quero
a
paz
Dia para o dia
brilho
raio
sol em alguma água
Um alto mar
não o símbolo
a paz
Quero a paz

Mesmo que ela venha sozinha


Topo da Pagina topo da páginaVersos Brancos

As pessoas que amei
são hoje palavras
impressas
Emolduradas
as pessoas me fixam
do poema escrito
As pessoas que amei
estão incorporadas
numa estante
São palavras
Relendo-as

elas respiram


Topo da Pagina topo da páginaA Terra é Redonda

Se corro corro
risco de
chegar

Ao mesmo lugar

 

Topo da Pagina topo da páginaAviso

Para tudo
há o tempo
necessário

Não se detenha mais

 

Topo da Pagina topo da páginaAdolescentes

Era tão bom quando
vocês brincavam sobre o tapete
de heróis
de super-heróis
Enchiam a casa de vozes
Esconderijos
Era tão bom
Batman
Falcon
Zorro
os amigos
Quando vocês
só ouviam histórias
dos Sete Anões, do Pinóquio
e o sono chegava com a noite
Era tão bom quando o mundo
não alcançava vocês

com garras socos relâmpagos


Topo da Pagina topo da página31 de Dezembro

De repente o céu
explode em fogos
luzes relâmpagos
Champanhes
espumas
taças
comprimindo os lábios
Ardente
o céu explode
de repente
sacode
a terra é lenta
gira redonda trêmula
me abrigo em casas
fortalezas
em parentes me equilibro em
redundâncias
Ergo a taça. Dezembro
             31 Existimos
então
ou

fomos já ceifados de alguma colheita

 

Topo da Pagina topo da páginaLendas

Naquele verão
o amor brilhou
como um sol
coloriu minha pele
e meu corpo
ágil pássaro
redimido
averiguou o que foi plantado
o que foi colhido
O amor mostrou a face
em sua face
naquele verão
fortes chuvas molharam a terra
e a colheita se fez farta exata
harmonia
entre o que é fome e o que sacia
Naquele verão
o amor apertou minhas mãos
suavemente
o amor apertou minhas mãos
com suas mãos
fortemente
me revelou a vida. Profundo

 

Topo da Pagina topo da páginaTarefa

cabe agora
morrer o corpo
dia a
dia ir
me desacostumando
do rosto
que eu chamava

meu   

 

Topo da Pagina topo da páginaLembrando

Um dia terás de
abandonar o
corpo
A pátria as conversas
as tardes compridas
Terás de abandonar
o sonho e o sono
o perfume os jasmins
Um dia terás de
abandonar tudo
todos
tentarão
guardar teu rosto
se desmanchando
também na memória
Prova
desde agora o gosto da palavra

adeus

 

Topo da Pagina topo da páginaMensagem

É
Natal
novamente
onde estamos
e onde não estamos
Nas ruas
nas noites enfeitadas
o Natal chega
passo a passo
em cada dia de dezembro
E não há como fugir
já não há onde esconder
o encontro é inevitável
Há que se aproximar então
o coração aberto
o afeto dilatado
Deixar
se desprender de nós
fardos desnecessários
forjados impedimentos
e aceitar
Aceitar esta carga-----condição de ser humano
É Natal
Há que se respirar
com novo fôlego
um outro ar
aqui
onde estamos
e onde jamais estaremos
o Natal nos transporta
como um barco incansável
É preciso deixar
esta água
fluir
é preciso aceitar
o mistério das fontes           

Não podemos deixar morrer nenhum nascimento

 

Topo da Pagina topo da páginaO Mar

conheço o mar

neste
domingo

conheço
a ternura verde
da árvore

da noite
abraçando o nosso
abraço

neste
domingo

conheço o mar
                    o nome

que mistura as nossas águas

 

Topo da Pagina topo da páginaMulheres

Mulheres
mecanizadas
simulam
vozes

De passos duros
e roupas leves
alargam a tarde
de fumaça e
objetivos

Têm pressa – não
sonhos

Mulheres mecanizadas
geram filhos e
criam o
abstrato

(do livro "Invenções do desespero", São Paulo / SP, 1973)

 

Topo da Pagina topo da páginaGabriel:

A praça era da

Marco zero da
cidade
Pombas telhados
Uma estação do Metrô

Dentro da Catedral
um ser
humano implora:

- salva-me. Do tempo

 

Topo da Pagina topo da páginaInicial

mudar a sombra e a árvore
da terra do mar mudar
ser par
mudar o risco e o cabelo
o lado de dormir e o de sonhar

(do livro "Mudança de lua", Scortecci Editora, 1986 – São Paulo/SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaEsqueci

o meu
caminho de casa

o sono úmido
útero

o nome dos sentimentos

as mãos
dadas às praças

as flores
as estações, esqueci
o rosto de minha mãe

(poema sobre xilogravura de Valdir Rocha)

 

Topo da Pagina topo da páginaCandestinidade

Vivi na clandestinidade
anos

No escuro nos bares na periferia
                                       anos a fio
                                       escondida
                                       envolvida
em fumaças
teorias
Na paixão. Na clandestinidade

Até que um dia me entregaram

à vida

(do livro "Mudança de lua", João Scortecci Editora - São Paulo, 1989)

 

Topo da Pagina topo da páginaGabriel:

a duras penas
o tempo parou:
enterramos o morto

nos misturamos à terra
a
duras penas
conhecemos o nosso verdadeiro nome

(do livro "Gabriel:" - Massao Ohno Editor, 1990, São Paulo/SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaPaisagem

O sol se
põe

Girassóis olham o chão


(do livro "Mudança de Lua" Scortecci Editora, 1986 – SP/SP)

 

Topo da Pagina topo da páginaSequência

o mendigo olha as
chagas de
Cristo

piedosamente

toca o vermelho
- ombro de
Cristo -

piedosamente

pousa depois
as mãos no
sujo
do
próprio ombro

piedosa/mente

 

Topo da Pagina topo da páginaGuitarra

Som
sentido
quem sou?
Corda de guitarra
fina
aguda
quebra a noite em duas

Vida – som sem
sentido

(do livro "É tempo de noite" - SP: Massao Ohno, 1960)

 

Topo da Pagina topo da páginaEm Dezembro

a lenta
iluminada
agonia

retorna a
voz esquecida sob a
pele

em dezembro

águas passadas movem
moinho

 

Topo da Pagina topo da páginaTelegrama

Mamãe morreu
Ficamos
Envergonhados

 

Topo da Pagina topo da páginaChuvas

Algumas pessoas
morreram

Num dia rude de dezembro
depois das
chuvas

Pela televisão as imagens
da cidade afogada

Algumas pessoas morreram
fazendo os gesto estranhos
dos que pedem socorro

(poemas do livro "À beira" - Editora Blocos, 1999 - Rio de Janeiro/RJ)

 

Topo da Pagina topo da páginaNostalgia

Amo
os
casais

Ombro
a
ombro

Pisando a mesma calçada

Amo os casais que
atravessam
ruas
estações

Seguram as
mãos
não
o tempo

Amo
os
casais

Que permanecem

 

Topo da Pagina topo da páginaAssim

Nada
devo pedir
Sei o que quero
não sei o que me
quer. Então
ergo o rosto ao sol
e sigo – visível – ao
destino

(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, 2010)

 

Topo da Pagina topo da páginaDebaixo do Sol

eu

vivo

para ir

tirando de mim
as camadas do Sonho


(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, 2010)

 

Topo da Pagina topo da páginaEntão

As forças me regem

Me põem em um caminho
me afastam deste caminho

E eu vou provando o mundo
todos os lados
todos os gostos
até que rota exausta exata
as forças me entreguem

À outra roda



(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, 2010)

 

Topo da Pagina topo da páginaTentativa

Quis
ressuscitar
o morto

Não consegui

Ele não me ouviu
como Lázaro
a Cristo

Preferiu a morte
e a minha inutilidade

(do livro "À beira", Blocos Editora, 1999, RJ/RJ)

 

Topo da Pagina topo da páginaLua Fria

Lua
fria
irmã
Sequer me espreitas

Vejo-te pálida
protegida pela névoa
fria
lua
minguada magoada irmã


(do livro "À beira", Editora Blocos, 1999, RJ/RJ)

 

Topo da Pagina topo da páginaSim

Não ser o coração
uma ferida

Não ouvir
no ruído da chuva
presságios de um retorno
Não confundir ramagens com raiz

E saber
Tudo já foi encontrado
apenas é o que já existe
São nossas verdades as estações do ano

(do livro "Risco", Nankin Editorial, SP/SP - 1998)

 

Topo da Pagina topo da páginaGavetas

o poema
caído
da ventania

- as gavetas escrevem

o poema sem voz
nascido
da dor em demasia

(do livro "Mudança de lua", Scortecci Editora - 1986 [1ª edição] e 1989 [2ª edição]. Capa e ilustração Odete da Conceição Dias)

 

Topo da Pagina topo da páginaHouve I

estranhos gestos de ternura
percorrendo conhecendo os limites
do corpo tentando provar o mel o
gosto do amor na pele do momento:
além
era o mar recortado de sombras
mãos úmidas de orvalho, seiva da
árvore
que nos escondia e nos revelava
um brilho de faca outro de sol

(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, SP - 2010)


Topo da Pagina topo da páginaHouve II

um
sentimento

depois

chuvas repentinas
inexplicáveis
febres
foram

engolindo à força
a força

(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial - São Paulo/SP, 2010)

 

Topo da Pagina topo da páginaHouve III

o primeiro


e
o


último dia

(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, São Paulo/SP, 2010)

 

Topo da Pagina topo da páginaEngano

afinal
construímos prédios
casas jardins rosas
desabrocharam
trêmulas, afinal fomos
submissos às ocupações do dia
às estações do ano
à rotação da terra

Pensávamos ser esta a nossa pátria

 

Topo da Pagina topo da páginaAproximação

Ela chega
dia a dia
anda
fala comigo

Embrulha o estômago
cega
afasta
a fome e a comida

Desmancha
aos poucos
o que chamava vida

(poemas incluídos na "Poesia Reunida", Editora Pantemporâneo, SP, 2012)


Topo da Pagina topo da páginaA Terra é Redonda

Se corro corro
o risco de
chegar

Ao mesmo lugar

 

Topo da Pagina topo da páginaPoema

Cansada das metáforas
dos bares, do atalho

dou a mão

A palmatória é rápida
voraz. Fundo o talho

(poemas incluídos na "Poesia Reunida", Editora Pantemporâneo, SP, 2012)

 

Topo da Pagina topo da páginaGabriel:

Cuidando da imortalidade
um poeta esquece a
vida

Come o pão
amanhã
Cerzindo as roupas claras
se veste de luto
pela casa
pobre cuidando: um poeta

De sonhos é que é

corrompido

um dia será lido

(do livro "Gabriel:", Massao Ohno Editor, 1990 - poema musicado pelo maestro A. Theodoro Nogueira)

 

Topo da Pagina topo da páginaGabriel:

o poeta
transforma
a realidade

em sonho

(do livro "Gabriel:" - Massao Ohno Editor, SP/SP, 1990)

 

Topo da Pagina topo da páginaSem Título

Verão. Meio-dia
Na sombra de uma nuvem
o boi cochila

(do livro "Há Estações", Editora Escrituras, SP/SP - 2003)

 

Topo da Pagina topo da páginaSem Título

Lá vai o menino
andando - apressado - na rua
Sorvete pingando

(do livro "Olhar", Dulcinéia Catadora, SP/SP - 2008)

 

Topo da Pagina topo da páginaNo Dia

Um sol
me abraça

Amo o que é
sonho
fumaça

O que passa


(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial - SP/SP, 2010)

 


 

 

 

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