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Eu Mesma
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Topo da Pagina topo da páginaAbertura

Eu Mesma, Poesias, Claudia Houdelier, Português, São Paulo, 1996.

Topo da Pagina topo da páginaCurrículo Literário

Claudia Houdelier escreve poesias desde os 12 anos de idade. Participou de cursos e concursos literários vencendo prêmios. Publicou isoladamente algumas poesias em antologias privadas.

Topo da Pagina topo da páginaAlucinatórias

esquisitas
nervosas
confusas latências
cruzam linhas tortas
e encontram
mistérios turvos,
curvas chaves.

Topo da Pagina topo da páginaAmor Total

parece
que qualquer coisa em mim
encontrou repouso
-nele-
meu pouso mais tranquilo
que me abre asas

Topo da Pagina topo da páginaAvesso

eu te disse
para ir
e fiquei
te esperando voltar
como tudo
o que fiz
e revi.

Topo da Pagina topo da páginaBiografia

converge do ventre
e passa
como um nada
do buraco
à vida
Acaba

Topo da Pagina topo da páginaCandura

Escapei
A veracidade
do contato
que dilacera,
em mim
cândida,
parece

eu tenho o corpo
a te desejar
e não te quero

Topo da Pagina topo da páginaCego Sentimento

Não posso impedir
que ele vasculhe o mundo
como a uma gaveta
Ele vai tatear a noite
e eu não vou ver
Só vou pensar
na noite em que me toca
e imaginar
que sou só eu.

Topo da Pagina topo da páginaCio

Perdôo
minha fotossíntese
e a insistência terna
de me querer
morna
Queria devorar
permitir-me
em vício

Topo da Pagina topo da páginaCoisas

muita coisa em mim
deixou de ser
fui esquecendo
caminhos que não fui
andei.
faço coisas,
tantas
por onde passo me perdendo das coisas
que não sei.

Topo da Pagina topo da páginaCompactos

Precipito
e atiro fragmentos
frágeis princípios
amarelos e turvos,
que coalham

Topo da Pagina topo da páginaConflito

às vezes sonho
cortar cordões
acordo umbilical
do sono

Topo da Pagina topo da páginaCouraça

Corpo de aço
Olhos plásticos
Atentos
O sentimento come dentro
e se instala
doendo doente
e embolora
a carcaça.

Topo da Pagina topo da páginaDele

e eu sou
a mentira
que ele elabora,
a dor disforme
que ele come,
a cor infame
que ele dorme.

Apavora.

Topo da Pagina topo da páginaDesculpa

o tempo me cansa
cansei do tempo
que não me muda
o tempo é essa minha muda
desculpa

Topo da Pagina topo da páginaDevaneio

me arremessa a ondas que desconheço
me assusta e afoga
me afaga
e eu navego
nesse bote solitário
atravesso as fronteiras de seu corpo
e pairo
aqui tudo inexiste:
só pele
carne
não há caminhos
só talhos
Louco delírio, turvas delícias

Nada

Topo da Pagina topo da páginaDiálogo Mudo

Caem cacos
de vidro tinto,
palavras mornas
olhares frios
E o olhar que olha
cerra a vista,
amassa.

Topo da Pagina topo da páginaDos Outros

Palavras bonitas
enfeitam a folha
Melhor seria
se as coisas não tivessem um nome
e se a minha vida
fosse só minha.
Pobre do homem
que crê no poeta
na lua que chora
e lhe toma emprestadas tantas asas
e pobre daquele
que não pode crer em si
de agora em diante
e à toda hora.
Que os meus sentidos
caminhem nas estradas
e possam ver
em tantos olhos.
Tristes as palavras bonitas
que só encantam as páginas.

Topo da Pagina topo da páginaÉgide

Cores que ecoam
nos infinitos
do nada
Sons que rompem
pálpebras cegas
nulos negros
Espectro
vazio de hiatos
Veias mudas
Gritos táteis
: nós mesmos
e nosso espelho
por trás de tudo,
atrás de nós.

Topo da Pagina topo da páginaEgo

Nada mais no espelho
ou no tempo
nada mais
Só isso em mim
que se afoga:
meu lado são,
narciso
Eu não sou eu
nem mesmo no espelho
Lá sou invertida
como o tempo
que me verteu
a esse ego em órbita
esquiva.

Topo da Pagina topo da páginaEspectro

não vejo nada
no mundo do outro
a não ser a
lágrima
que ele expele
e não digere
no meu estômago
que espelha.

Topo da Pagina topo da páginaEspira

Não me siga
Estou perdida
nas asas de um pássaro sem asas
na cauda de um cavalo negro noite
Estou de salto
no não sei onde
Ontem: ainda não sei
Agora,
é só viagem.

Topo da Pagina topo da páginaFabricada

e se meu mundo ruísse
cordão ligasse a gema
e eu pudesse
virar com a sombra
sombrear o bater
minhas unhas de seda,
fabricar.

Topo da Pagina topo da páginaFaces

Na boca dele tem o céu
sereno
lá, navego a língua do tempo
até que a tempestade dele
venha
lá:
as cavernas
onde nos vemos.

Topo da Pagina topo da páginaÍntimo

Seduzo secretamente
a maquiagem do monstro
que me afeta
a textura.
Da epiderme
à relação,
eu temo.

Topo da Pagina topo da páginaIsso

me aguardo
do meu ventre
me inferir
meu centro

Topo da Pagina topo da páginaMaquiagem

nem mesmo uma linha
e anos se passaram
é que qualquer coisa em mim
não exalava
-nada morreu-
só ficou ali,
como água parada.

Topo da Pagina topo da páginaMembro

Míope,
minha visão
fálico-lírica.
Anjo etéreo
é o corpo
que habita.

Topo da Pagina topo da páginaMinotauro

não posso fugir
nem me atacar
com qualquer coisa
que me fira o gesto
Não é o rosto que me assusta
é essa carcaça-labirinto
que não faz achar-me

Topo da Pagina topo da páginaMundinho

mundo neutro
lindo e ninho
recolhi-me inteira
como não bastasse

Topo da Pagina topo da páginaNada Mais

Algumas coisas que o tempo rouba,
só eu sei
Na boca que deixei o longo beijo de adeus
embarca o sol
que desce a colina
só para me ver.

Topo da Pagina topo da páginaOstreira

Olhei os lados
Fechei feito ostra
na paisagem
Daqui minha concha aguarda
a hora
de abrir o lado de dentro
ao lado de fora.

Topo da Pagina topo da páginaOusada

Borboleta pálida
despetalei
colorido lábio rubro.
Da íris negra
faço olhar
que detesto
Queria voar
das minhas asas

Topo da Pagina topo da páginaPassatempo

tudo passa
até o colorido dos teus olhos
até o desbotado gosto da tua boca
passa.
A voz engasga
o cabelo embaraça

Topo da Pagina topo da páginaQualquer

Acabou

o barulho
da porta caindo
da mesa
batendo a rotina
o teto dorme
e eu vou sair

Topo da Pagina topo da páginaQuereres

Temo tua pele
que me devora
tua voz
que me ensurdece
teu carinho
que esfola
Quero tua pele
me devora

Topo da Pagina topo da páginaRefinar

ternamente,
um dia, o turbilhão retira
da doce fúria
que vem de dentro,
o acabamento

Topo da Pagina topo da páginaRelógio

não quero nada,
nem o vazio desse meu encontro assim sereno.
nenhuma coisa em mim
agora se agita ou tempesta.
minhas palavras adormecem no silêncio
das descobertas exaustas,
dos longos caminhos
e dos grandes discursos
que nunca bastam.
não tenho ouvidos
nem folhas de papel.
tenho lembranças não me servem
e um despertar que espero.

Topo da Pagina topo da páginaRetrato e Espelho

O tempo nunca mais vai trazer meu rosto
nem os lábios ingênuos
nem os ouvidos desconhecedores
Não há mais aquele perfil sorrindo ao mundo
nem os dentes brancos
nem a pupila enorme
nem a face tão arredondada de sorrisos
nem as mãos tão leves
nem os pés tão frágeis
Só há qualquer coisa de meu rosto em meu rosto
e eu me temo porque me conheço
O tempo foi vil ao roubar-me de mim mesma.

Topo da Pagina topo da páginaSentidos

amores, tantos
dentro de mim seus segredos.
-eu não- nenhum segredo.
transparentes manhãs em que se entrelaçavam lembranças,
gestos
e cheiros.
Tudo esteve sempre no ar
e eu respirei
sem medo.

Topo da Pagina topo da páginaSilêncios

Só o silêncio
me atormenta
Não há nada
nas palavras
a que eu tema
elas dizem
dolorosas tolices.

Topo da Pagina topo da páginaTeia

ultrapassei meu verbo
infinito e conjugado
daqui
me olho
e vejo passado.

Topo da Pagina topo da páginaTranscender

ser poeta
ou louca
pouco importa
Posso viajar
no corpo dele
ouvir música dourada
nas asas de um pássaro mudo
ser mosca

Topo da Pagina topo da páginaVaidosa Relação

O tempo não muda,
edifica pontes
como edificou em mim
cicatrizes mutantes
Se eu pudesse mudar o tempo
mudava só as cicatrizes

Topo da Pagina topo da páginaVentania

tem vezes
que chego gritando
Depois,
me beija a boca
olha baixo,
me arrepia
E despedaço,
quente e fria.

 

 

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