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Crônicas de Danusa Leão
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Crônicas

Topo da Pagina topo da páginaMulher Atual

Quantas mentiras nos  contaram! Foram tantas que a gente bem cedo começa a acreditar e,  ainda por cima, a se achar culpada por ser burra, incompetente e sem  condições de fazer da vida uma sucessão de vitórias e felicidades.  

Uma das mentiras é a de que nós, mulheres, podemos conciliar perfeitamente as funções de mãe, esposa, companheira e amante, e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante.

É muito simples: não podemos...

Não podemos. Quando você se dedica de corpo e  alma a seu filho recém-nascido, que na hora certa de mamar dorme e que à noite, quando devia estar dormindo, chora com fome, não consegue estar bem sexy quando o marido chega para cumprir um dos papéis considerados obrigatórios na trajetória de uma mulher moderna: a de amante .  

Aliás, nem a de companheira. Quem vai conseguir trocar uma idéia sobre a poluição da Baía de Guanabara se saiu do trabalho e passou no supermercado rapidinho para comprar  uma massa e um molho já pronto para resolver o jantar, e ainda por cima está deprimida porque não teve tempo de fazer uma escova?  

Mas as revistas femininas estão aí, querendo convencer as mulheres - e os maridos - de que um peixinho com ervas no forno com uma batatinha cozida al dente, acompanhado por uma salada e um vinhozinho branco, é facílimo de  fazer - sem esquecer as flores e as velas acesas, claro, e com isso o casamento continuar tendo aquele toque de glamour fun-da-men-tal  para que dure por muitos e muitos anos.  

Ah, quanta mentira!  

Outra grande diz respeito à mulher que  trabalha; não à que faz de conta que trabalha, mas à que trabalha mesmo. No começo, ela até tenta se vestir no capricho, usar sapato  de salto e estar sempre maquiada; mas cedo se vão as ilusões. Entre  em qualquer local de trabalho pelas 4 da tarde e vai ver um bando de  mulheres maltratadas, com o cabelo horrendo, a cara lavada, e sem um  pingo do glamour - aquele - das executivas da Madison.  

Dizem que o trabalho enobrece, o que pode até  ser verdade. Mas ele também envelhece, destrói e enruga a pele, e  quando se percebe a guerra já está perdida.  

Não adianta: uma mulher glamourosa e pronta a  fazer todos os charmes - aqueles que enlouquecem os homens -  precisa, fundamentalmente, de duas coisas: tempo e dinheiro.  

Tempo para hidratar os cabelos, lembrar de  tomar seus 37 radicais livres, tempo para ir à hidroginástica, para ter uma massagista tailandesa e um acupunturista que a relaxe; tempo  para fazer musculação, alongamento, comprar uma sandália nova para o  verão, fazer as unhas, depilação; e dinheiro para tudo isso e ainda para pagar uma excelente empregada - o que também custa dinheiro.  

É muito interessante a imagem da mulher que depois do expediente vai ao toalete - um toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria, retoca a maquiagem, coloca os  brincos, põe a meia preta que está na bolsa desde de manhã e vai,  alegremente, para uma happy hour.

Aliás, se as empresas  trocassem a iluminação de seus elevadores e de seus banheiros por  lâmpadas âmbar, os índices de produtividade iriam ao infinito; não há auto-estima feminina que resista quando elas se olham nos espelhos desses recintos.

Felizes são as mulheres que têm cinco minutos - só cinco - para decidir a roupa que vão usar  no trabalho; na luta contra o relógio o uniforme termina sendo preto ou bege, para que tudo combine sem que um só minuto seja perdido.  

Mas tem as outras, com filhos já crescidos:  essas, quando chegam em casa, têm que conversar com as crianças, perguntar como foi o dia na escola, procurar entender por que elas estão agressivas, por que o rendimento escolar está baixo.
 
E ainda tem as outras que, com ou sem filhos, ainda têm um  namorado que apronta, e sem o qual elas acham que não conseguem viver . Segundo um conhecedor da alma humana, só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar, água e pão.  

Convenhamos que é difícil ser uma mulher de verdade; impossível, eu diria.  

Parabéns para quem consegue fingir tudo isso...  

 

Topo da Pagina topo da páginaO Pior Inimigo é o Falso Amigo

O pior inimigo é o falso amigo.
Volta e meia faz comentário sobre você, maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar.
Já que é inevitável ter inimigos, a coisa melhor do mundo é ter um de verdade: que te odeie com lealdade e sinceridade -sem nenhum fingimento.
Ele é capaz de falar mal de você em público sem ter, em momento algum, medo de que repitam o que ele disse. E também pode te dar um tiro ou uma facada, mas sem nunca te enganar -sempre numa boa.
Não é, positivamente, do tipo que diz “vou te contar uma coisa, mas não repita, fica só entre nós”.
Dele você pode esperar sempre o pior: que impeça que aquele negócio que estava planejando havia anos se realize, que diga àquela gata que está povoando seus sonhos que você é um cafajeste, que o dinheiro que você esbanja vem do tráfico de drogas -ou coisas ainda piores.
Sabendo do que ele é capaz, você pode sempre se defender -o que é mais fácil do que lidar com a hipocrisia.
Como guerra é guerra, nada que ele faça de ruim poderá surpreender -essa é a vantagem de ter um inimigo leal. Quando se encontram num restaurante, você já sabe que deve ficar alerta e se sentar de costas para a parede, como fazem os malandros.
Ele é capaz de seduzir sua filha menor, de contratar alguém para roubar seus documentos e de jurar sobre a Bíblia sagrada que viu você subornando um político.
Tudo faz parte, e quanto mais coisas ele fizer contra você, mais você aprende a se defender; como se aprende com um inimigo assim -ah, como se aprende.
Perigosos mesmo são os pseudo-amigos, aqueles que te tratam bem e que volta e meia fazem um comentário sobre você -maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar-, afinal, é apenas uma brincadeira, será que você perdeu o humor?
E aquele que passou anos construindo a imagem do bom caráter de carteirinha pode fazer você levar a vida inteira na dúvida, sem ter coragem de encarar a verdade: que se trata apenas de um crápula.
A tal da imagem ilude muita gente, que durante anos pensa que o personagem é defensor das boas causas, dos fracos e oprimidos, e sempre politicamente correto -faz parte do modelo, claro.
Incapaz de encarar uma briga de frente, ele não consegue nem ter inimigos, pois, como ser humano, não passa de uma fraude -e de um covarde.
Está sempre atrás de alguma vantagem -alguma pequena vantagem- e frequentemente comete traições -pequenas traições que dificilmente poderão ser comprovadas. E se alguém ousar acusá-lo de alguma coisa, sempre haverá alguém para defendê-lo -afinal, de uma pessoa com um passado tão correto, só um louco ousaria dizer alguma coisa.
Suas maldades e falhas de caráter nunca são grandiosas, porque nada nele é grandioso.
Suas maldades são pequenas, porque tudo o que ele faz é pequeno; pequeno como sua pessoa, como sua alma. Mas, às vezes, se tem que conviver com gente assim -como fazer?
Se for seu caso, não faça nenhum tipo de concessão.
Cometa um assassinato, internamente, e esqueça de que ele existe -mas esqueça mesmo. Mas atenção: é importante que ele saiba que você sabe perfeitamente quem ele é.
Fique cego quando passar por ele, e se alguém mencionar seu nome, não ouça; esqueça das mesquinharias de que é capaz um pobre ser humano.
E valorize seus inimigos, os bons. Eles estão sempre dispostos a liquidar com você, mas sempre com a maior lealdade.

 

Topo da Pagina topo da páginaUma Homenagem Especial aos Homens

"Afinal, homem serve para quê?
Ah, para uma porção de coisas, e todas ótimas.
Para namorar, por exemplo, ainda não se descobriu nada melhor.
Pensar neles, sonhar com eles, fantasiar a vida com eles, às vezes, é quase tão bom quanto estar com eles.
Homem é para realçar a vida das mulheres.
Mas como saber se ele está ou não cumprindo sua função? Simples!
É quando você tem vontade de se enfeitar, trocar de penteado, fazer depilação, comprar um sapato de salto alto, vontade de fazer ginástica, de passar fome, só para agradar; se você faz tudo isso, e com a maior alegria, é porque ele merece.
Um homem que sabe apreciar seu anelzinho novo, seu brinquinho; nota quando você está mais loura, se a perna está mais durinha, é muito, muito estimulante.
Ter um homem que desperta a vontade de enfrentar uma cozinha, de voltar do trabalho correndo e, mesmo exausta, vai ao supermercado para comprar a manteiga sem sal que ele tanto gosta (até umas flores...porque não?) é apenas a melhor coisa do mundo.
Se estivesse sozinha, comia pão de forma gelado com margarina salgada, sem nem sentir o gosto.
Se, além de alegrar sua vida, ele ainda dirige o carro, procura vaga e paga o flanelinha, é a felicidade total.
Um homem que sabe, em caso de necessidade, pregar um prego, trocar um fusível, matar uma barata, sinceramente, tem coisa melhor?
Tem sim, e ainda tem muito mais.
Um homem que faz você gostar dele apaixonadamente, que dorme abraçado com você no inverno, que ouve seus problemas sem bocejar, que conversa, que ajuda.
Com quem quer ter filhos, planos de envelhecer junto, ah, isso é bom.
Um homem, no ombro de quem você chora, com quem dá risada, que te faz perder o rumo de casa e que te faz pensar, quando está longe, "não consigo viver sem ele"; se você encontra um que te faz sentir tudo isso, agradeça a Deus; é apenas a melhor coisa do mundo.
Só que nem todas as mulheres pensam assim.
Algumas acham que homem só serve para duas coisas: para que elas não entrem sozinhas nas festas e para que paguem as suas contas.
Pela vida dessas mulheres nunca passou nenhum homem de verdade, esse é que é o problema.
Elas nunca imaginaram a possibilidade de encontrar um mais simplesinho, com um sobrenome menos famoso, com quem pudessem tentar uma relação sincera, feliz, e nem podem: elas nunca ouviram falar que isto existe, veja você.
Quando elas têm a sorte de encontrar um, que cumpra com as funções com que sempre sonharam, como se passam as coisas?
Quando jantam sozinhos, falam de quê?
E quando terminam de jantar, fazem o quê?
Ninguém sai da mesa direto para a cama (quartos separados, claro!), como nem todo dia tem festa com amigos (nos jantares elegantes, ficam sempre em mesas separadas), fotógrafos, champanhe, então como fazem?
Como vivem? Boa pergunta...
Talvez já tenha acontecido a alguma delas um dia, num jantar enorme, bem chique, de repente perceber um homem muito interessante conversando num grupo, bem longe, mas olhando para ela com aquela firmeza.
Fica claro que o que ele quer é sumir (com ela) imediatamente, dane-se a festa, que a melhor, a melhor festa, seria os dois, juntos e sozinhos.
Se isso aconteceu, será que ela percebeu?
E se percebeu, será que foi? Provavelmente não.
Elas ainda não entenderam que homem só existe para uma coisa: "para fazer a gente feliz, não importa em quais circunstâncias..."

 

Topo da Pagina topo da páginaAnos Dourados

Não há nada que me deixe mais frustrada
do que pedir sorvete de sobremesa,
contar os minutos até ele chegar
e aí ver o garçom colocar na minha
frente uma bolinha minúscula do meu
sorvete preferido.
Uma só.
Quanto mais sofisticado o restaurante
menor a porção da
sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar
numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem
cremoso e saborear em casa com direito a
repetir quantas vezes a gente quiser,
sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que
tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres
meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come
pouco.
Vai à festa de casamento, mas
resiste aos bombons.
Conquista a chamada liberdade
sexual, mas tem que fingir que é
difícil (a imensa maioria das mulheres
continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').
Adora tomar um banho demorado,
mas se contém para não
desperdiçar os recursos do planeta.
Quer beijar aquele cara 20 anos mais
novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.
Tem vontade de ficar em casa vendo
um DVD, esparramada no sofá,
mas se obriga a ir malhar.
E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar',
tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...
Aí a vida vai ficando sem tempero,
Politicamente correta e existencialmente
sem-graça, enquanto a gente vai ficando
melancolicamente sem tesão...
Às vezes dá vontade de fazer tudo
'errado'.
Deixar de lado a régua,
o compasso,
a bússola,
a balança
e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente
e não estar nem aí pro que dizem e
o que pensam a nosso respeito.

Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou
e disse uma frase mais ou menos assim:
'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'...
Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem,
podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete,bombons de muitos
sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no
corpo, o coração saciado.
Um dia a gente cria juízo.
Um dia.
Não tem que ser agora.
Por isso, garçom, por favor, me traga:
cinco bolas de sorvete de chocolate,
um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order',
uma caixa de trufas bem macias
e o Richard Gere, nú,
embrulhado para presente.
OK?
Não necessariamente nessa ordem.
Depois a gente vê como é que faz para consertar o estrago...

 

Topo da Pagina topo da páginaLuta de Classes

HÁ UNS DOIS ANOS tive uma diarista que começava a trabalhar muito cedo -por escolha dela; às 6h ela já estava em minha casa. Uma morenona bem carioca, simpática, risonha, disposta, sempre de altíssimo astral.
[Leia-se: era uma preta com aquela energia vital, sabe, que só os pretos têm, pois estão mais perto da espontaneidade primitiva da natureza e não carregam, assim, os dilemas existenciais intelectuais profundos que NÓS temos, sabe?]
[Aliás, deixa eu registrar meu protesto com a patrulha do politicamente correto. A menina era preta, preta retinta, mas nem na Folha (na Folha, hein!) eu posso escrever isso sem ser linchada, literalmente linchada!!, então sou obrigada a chamar de "morenona" mas vocês entendem, né? "Morenona" quer dizer "muito preta", "moreninha", "preta clarinha", e assim por diante. Olha, não sei onde vai parar esse mundo onde uma pessoa claramente bondosa e magnânima como eu nem pode chamar preto de preto. Ufa! Cansaço de tanta patrulha!]
Gostei dela, e como detesto fazer ares de patroa -e não sei-,
[Eu sou super humilde, gente! Quem me conhece, sabe! Esse texto é prova disso!]
tínhamos uma relação amistosa e legal, como devem ser todas as relações. Algum tempo depois, comecei a fazer aula de natação em um clube que fica a uns 500 metros de minha casa. A aula era às 7h, mas e a preguiça? Preguiça de levantar da cama, e enfrentar a distância ficou difícil. Tive então uma ideia: levá-la comigo. Assim, teria companhia para ir e voltar, e seria mais fácil a caminhada. Vamos deixar bem claro: não foi nem um ato de gentileza de minha parte, nem pensei apenas em meu proveito.
[Ai, como eu sou magnânima, né, gente? Gosto de me olhar no espelho e dizer: isso, Danuza, você está fazendo do mundo um lugar melhor! Go, girl! Mas deixa eu disfarçar um pouco na crônica, senão vai pegar mal até pros leitores da Folha!]
Achei que seria bom para as duas, e ela, que talvez nunca tivesse entrado numa piscina, ia adorar.
[Sei lá de onde vem essa gente, né? Aliás, lá em caixa-prego tem piscina? Tem telefone? Tem aspirador?]
Perguntei se gostaria, ela ficou toda feliz,
[só faltou abanar o rabo!]
e, a partir daí, todos os dias íamos juntas, conversando.
[Sério, vocês me digam, tem patroa mais legal que eu? Eu nem fazia ela andar atrás de mim nem nada! Íamos con-ver-san-do!]
Eu pagava minha aula e a dela,
[meu nome é generosidade!]
e às 8h30 estávamos de volta, alegres, falando sobre nossos progressos. Já que não posso mudar o mundo, pensei, estou exercendo o socialismo -ou a democracia- pelo menos em meu território.
[You go, girl!]
Mas notei que a cada vez que contava isso para os amigos, nenhum deles dizia uma só palavra; nem para achar que tinha sido uma boa solução, nem para ficar contra, nem ao menos para achar alguma graça. Silêncio geral e total.
[Poxa, nem um aplausozinho? Nada? Que gente mesquinha, invejosa! Aposto que não falaram nada pois sou tão legal, generosa e magnânima que isso deve incomodá-los, sabe? Eles devem se sentir mal na comparação, devem ficar pensando, puxa, eu sou um verme mesmo, como é que nunca fiz isso com a MINHA empregada?, queria eu poder ser tão legal e bondoso como a Danusa...]
O tempo foi passando. Comecei a perceber pequenos desvios no troco, às vezes dava por falta de uma das três mangas compradas na feira, os picolés que guardava no freezer desapareciam, os refrigerantes e sabonetes também, e eu pensava: "tem dó, Danuza, afinal ela toma duas conduções para vir, duas para voltar, a grana é pouca, se ela fica com oito ou dez reais da feira, é distribuição de renda. E se comeu metade do Gruyère, dizer que o queijo francês é só seu, é um horror"; e assim fomos indo.
[Olha, falando sério, vocês me digam, tem como uma patroa ser mais legal e generosa que eu? Não, sério mesmo, falando sério agora, é possível? Vocês já ouviram falar? Não estou me gabando não, mas poxa, vocês tem que reconhecer!]
Fomos indo até que um dia viajei por um mês, e quando voltei, houve problema com um cheque; coisa pouca, mas ficou claro, claríssimo, que tinha sido ela, e tive que demiti-la, o que aliás me custou bem caro, em dinheiro e pela deslealdade.
[Pra uma pessoa assim tão boa e generosa como eu, não é fácil demitir alguém, mesmo ela sendo uma ladra!]
Depois da demissão, fui descobrindo coisas mais graves -e nem vou contar todas, só uma delas: nos fins de semana, ela vinha com o marido, punha o carro na garagem do prédio e o casal passava o fim de semana na minha casa.
Depois de recibos assinados, tudo liquidado, chegou a conta do telefone do mês em que estive fora: havia 68 ligações para um único celular. Liguei para o número e soube que era de um funcionário do clube de natação, que ela paquerava.
[Ó, ela tinha vida própria a safada! Ao invés de simplesmente ir e vir do meu lado, conversando comigo, agradecida, a cretina logo arranjou seus próprios motivos pra fazer aula de natação! Não dá mesmo pra confiar nessa gente!]
Quando entrou a substituta, tive que comprar lençóis, toalhas e um monte de coisas que ela havia levado. Sei que não sou um modelo de dona de casa, mas alguém conta todos os dias quantos lençóis tem? E tranca os armários? Não eu. Durante um bom tempo fiquei mal: pela confiança, pela traição, depois de quase dois anos de convivência. E agora?
Não sei. Afinal, somos ou não somos todos seres humanos iguais, como me ensinaram?
[E, aliás, como vocês viram pelo texto, eu aprendi bem, né? Viram como falei da minha empregada exatamente como falaria de qualquer amiga minha de Ipanema. Pra mim, ó, gente é tudo igual. Ou... será que não?!]
Ou é preciso mesmo existir uma distância empregado/patrão, como dizem outros? Ou esse foi um caso singular?
[Porque, óbvio, dado que a empregada não é um ser humano com moral e motivações próprias, mas tipo uma cachorrinha que me segue pela casa e pela vida, é claro que ela não me roubou porque ELA era escrota, ou ladra, ou necessitada, ou por qualquer motivo inerente a ELA que foi quem perpetrou a ação. Nada disso, oras. Se ela me roubou, é porque alguma coisa EU fiz, é porque EU fui muito boa e generosa, é porque EU dei muita confiança.>Porque, afinal, essa história toda é sobre MIM, o que EU fiz, o que EU deixei de fazer. A empregada entra apenas como sombra na parede da caverna, sem existência ou vontade própria, a não ser quando reagindo a mim ou interagindo comigo. Claro, né?]
Aprendi que a luta de classes começa dentro de nossa casa,
[E eu que nem acreditava em luta de classes!! Quem diria!]
e mais especificamente, dentro da geladeira. E enquanto o mundo não muda,
[eu é que não vou mudar, né, gente - eu já sou perfeita, bondosa, generosa!]
passei a comprar queijo de Minas, que além de tudo não engorda.
[Vejam só, no good deed goes unpunished, né? Fui dar confiança demais e agora sou obrigada a comer... argh... queijo de pobre!]

 

Topo da Pagina topo da páginaA Raiva Constrói

QUANDO alguém nos magoa e nos faz sofrer, o que acontece? Ou se sofre, o que em grande parte das vezes termina em depressão, ou se fica com muita raiva, o que é bem melhor. Mas a raiva -foi o que nos ensinaram- é um sentimento feio, baixo, que pessoas superiores não devem ter. Mas vamos discordar: uma boa raiva com motivos é saudável, e faz muito bem à pele, ao coração e à alma, além de evitar o infarto. E quem está querendo ser superior?
Conseguir ter raiva é excelente para a saúde física e mental; a depressão nos leva para a cama e tira a vontade das coisas mais banais, como tomar banho, passar uma escova no cabelo, comer, ler, quem não sabe? Já a raiva faz com que se façam coisas, mesmo que sejam coisas erradas. Na depressão você não se levanta nem para ir a um cabeleireiro; já na hora da raiva você pinta o cabelo de vermelho, o que é muito melhor do que ficar prostrada olhando para o teto.
Exemplos são sempre ótimos: se uma mulher é abandonada por um homem, entre a tristeza e o ódio, o que é melhor? O ódio, claro. Por raiva e ódio as pessoas querem e devem mostrar que não é qualquer coisa que as derrubam.
A primeira providência de uma mulher (saudável) com raiva é pensar: "Como é que vou me vingar?"
Em primeiro lugar, mostrando que não está sofrendo. Para isso é preciso estar na sua melhor forma, razão mais do que suficiente para perder aqueles três quilinhos, comprar um vestido novo, pegar um sol, aposentar definitivamente o uniforme tênis e jeans e voltar a usar um bom salto alto. Parece bobagem? Pois não é. Dificilmente você vai ver uma mulher se equilibrando num salto oito com depressão. De salto, automaticamente se encolhe a barriga, se levanta o queixo, e os ombros ficam na posição certa, como se desafiasse o mundo. Se cruzar com ele, não é melhor estar maravilhosa do que arrasada?
Uma coisa leva a outra: por sentimentos nobres como o amor próprio, o orgulho, a vaidade e a raiva, não se deixa a peteca cair -em público, pelo menos-, e com isso vem o hábito de não deixar a peteca cair nunca, a não ser no divã do analista.
Pense um pouco: se você é normal, deve ter raiva de alguém. O que deve fazer para irritar esses alguéns? Ficar linda, maravilhosa, ter sucesso, ser vista sorrindo, vibrando, enfim, ser feliz.
Digamos que você seja uma desenhista de moda e que esteja sem a menor inspiração. Faz o quê? Pensa numa pessoa que detesta e imagina a glória de fazer um trabalho elogiado, que faça com que você se torne a melhor de todas. Só de pensar nesse delicioso prazer, é capaz de baixar em você o espírito de Balenciaga e o trabalho fluir fácil, só de raiva.
Quando for ao jornaleiro da esquina, pense que pode se encontrar com ele -aquele que fez você sofrer tanto-, e é claro que vai se realçar antes de descer. Se acontecer, não vai ser ma-ra-vi-lho-so ele ver como você está muito mais linda agora, sem ele? Deve estar sendo muito bem tratada, ele vai pensar. E pode ser ainda melhor: encontrar na esquina outro que te faça feliz para sempre por uns tempos -ou não?
Por isso, querida, quando vier aquela raiva cega, aquela vontade de gritar, de xingar, de matar, transforme toda essa energia a seu favor. Assim como o amor constrói para a eternidade, a raiva pode construir a prazo bem mais curto -e de superior e inferior, afinal, todos nós temos um pouco.
Uma delícia, ter uma boa raiva; e sobretudo, muito construtivo.

 

Topo da Pagina topo da páginaReceita de Vida: Se Conhecer Bem

UMA DAS COISAS mais importantes neste mundo é se conhecer bem; saber de suas qualidades e defeitos -sobretudo os defeitos- e, no campo profissional, de suas aptidões e capacidades, para errar pouco e não perder tempo fazendo coisas para as quais não tem o menor dom.
O sonho atual de uma certa juventude é trabalhar na televisão. As candidatas telefonam para os parentes e amigos dos autores e diretores, vão aos lugares onde acham que podem encontrar as pessoas certas, e algumas fariam qualquer papel -mas qualquer papel mesmo- para conseguir uma ponta numa novela. Às vezes até conseguem e fazem dois ou três trabalhos -só que não deslancham. E aí vêm as desculpas: "O diretor me paquerou mas eu não topei", ou "foi aquela piranha que fez uma intriga, por isso não consegui o contrato" -e por aí vai.
Raras, raríssimas são aquelas que têm a coragem de admitir: "Não nasci para atriz" -e partir para outra. Isso em todas as áreas: tem a que quer ser escritora, a outra poetisa, uma terceira que sonha em virar uma grande estilista, a que pensa em ser Marisa Monte, e a que se imagina como sucessora de Glauber Rocha; mas como o mundo é injusto, nada dá certo. E o que é dar certo? Bem, para essas, fazer um sucesso retumbante, com direito a capas de revistas e fotos nos jornais, pois as luzes da ribalta exercem sobre elas um tal fascínio que fica difícil aceitar um destino que possa parecer, de longe, medíocre. Só que talvez sua vocação verdadeira possa ser viver uma vida tranqüila e, quanto mais cedo isso for descoberto, melhor; e, mesmo com um mundo tão vasto e cheio de possibilidades, passam a vida tentando chegar onde sonham, jogando fora seu bem mais precioso -o tempo-, buscando o patrocínio para um filme ou um espetáculo que, na maioria das vezes, já nasce condenado ao fracasso -e isso quando conseguem o tal do patrocínio.
De quem é a culpa? Sempre dos outros, claro: primeiro do governo, que deveria ter como objetivo principal financiar a cultura; do diretor da novela, com quem elas não quiseram fazer o teste do sofá; da rival, que conseguiu ficar com o papel que deveria ser dela. Não passa pela sua cabeça, em momento algum, que, se a outra conseguiu, é porque tinha mais competência, o que, reconheçamos, é mesmo difícil de admitir. E como administrar seu próprio fracasso é mais difícil ainda, a solução é jogar a culpa na outra.
Mas não há quem não tenha seus talentos e, como diz o ditado popular, quem procura acha -e tem tanta coisa para inventar. Pare e pense: o que é que você mais gosta de fazer? O que é que você sabe fazer bem?
Se adora viajar, por que não tenta ser guia turística? Se cozinha bem, por que não organiza um curso em casa, para as amigas que não têm noção de como se faz um ovo cozido? Se foi sempre elogiada por saber receber, por que não vira professora de jovens noivas, ávidas para aprender? E se sua vocação for para não fazer nada, ser servida por várias empregadas, ter motorista, comer caviar no café da manhã, por que não arranja um marido rico ou um senhor que a ajude? Mas é sempre bom lembrar: para isso também é preciso ser competente.
Deixe de lado a fantasia -bem cômoda, aliás- de que é uma injustiçada, e que se não está brilhando na Broadway é porque alguém foi culpado. E talvez faça bem a seu coração saber que, mesmo no peito das mulheres de sucesso, bate às vezes uma nostalgia de não estar em casa pregando os botões na camisa do marido e pensando nele -ah, com essa chuvinha, como seria bom.
Só que essa mulher não está onde está em vão: ela se conhece bem e sabe -e não põe a culpa disso em ninguém- que, se não tem um marido para esperar, é que talvez não tenha talento para isso.
E estamos conversadas.

 

Topo da Pagina topo da páginaMimetismo

Quase todos os homens usam barba, Erenice é a cara de Dilma, Marta e d. Marisa estão parecidas

Lula está histérico; um recém-chegado ao Brasil que o tenha visto no programa eleitoral acreditaria que o PSDB é que tinha violado o sigilo de altos dirigentes do PT, da filha de Dilma, do seu genro, e não o oposto do que se suspeita.

É muita cara de pau. A maneira como ele se refere aos outros candidatos é baixa, sem nenhum respeito; será que é demais querer para presidente alguém mais educado?

Até agora, Dilma está, segundo as pesquisas, à frente dos outros candidatos, mas a possibilidade de haver um segundo turno tira Lula do sério. Sempre se soube que ele era um mau perdedor, e agora se anuncia também como um (possível) péssimo ganhador. E alguém acredita na investigação da Polícia Federal?

Na quebra do sigilo telefônico da funcionária da Receita? Em alguma coisa que envolva esse governo?

Além de todos os meus medos, agora tenho um novo: de que Lula exploda feito um homem bomba num palco qualquer, com o microfone na mão, tal a raiva e o ódio que não consegue esconder -nem tenta. O presidente não se conforma em ser contrariado, não admite ser derrotado, e sua fúria, quando supõe que isso possa acontecer, é a de um animal com raiva -a doença- em seus piores momentos.

Em suas metáforas, passou da ignorância, até compreensível, à grosseria e à boçalidade.

Já acreditei que o PT fosse o partido da ética, diferente de todos os outros; alguém lembra? E me sinto uma total idiota, por não ter ouvido o que me diziam os mais experientes da política, que um governo Lula se tornaria quase uma ditadura stalinista - e um dos que me disseram isso foi Brizola.

Sou viciada em programa eleitoral, mas na hora do PT, tiro o som. As caras sinistras e os dedos apontando me fazem mal. O mesmo mal que eu sentia quando via Collor (não por acaso, agora aliados).

Para alguns, é mais fácil empunhar uma metralhadora do que um adversário, e Dilma continua se escondendo, não indo aos debates, não falando sobre o assunto. E se ela ganhar?

Lula é bem capaz de dizer, se achando o próprio D. Pedro 1º, "já que é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico".

O PT sofre de mimetismo. Quase todos os homens usam barba, Erenice é a cara de Dilma, Marta Suplicy e d. Marisa estão parecidíssimas, e os estoques de botox estão se acabando. Menos, gente, menos.

Além da eleição, tenho outra grande preocupação: qual será o destino dos oito pitorescos vestidos verde e amarelo que Marisa Letícia usou nos oito desfiles de 7 de Setembro, para comemorar o Dia da Independência e saudar o povo?

Não deixa de ter sido uma bela contribuição à República, mas como esses vestidos nunca poderão ser usados em nenhuma outra ocasião, aí vai a sugestão: como existe um movimento para transformar a casa tombada dos Paula Machado, na rua São Clemente, em Instituto Lula (para imitar Fernando Henrique), um pequeno espaço poderia ser destinado a esses vestidos, para que as futuras gerações entendam o que foram os anos Lula.

Um museu tipo o de Carmem Miranda; sem tanta graça, é verdade, mas também, a seu modo, histórico.

Mas por que logo no Rio? Por que não em São Bernardo?

 

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QUANDO ACONTECE uma coisa bem boa, qual é meu primeiro impulso? Contar para alguém; aliás, contar para vários alguéns, contar para o mundo. Eu pego o telefone e vou ligando, pela ordem de amizade, só que nem sempre o universo conspira a meu favor.
Outro dia, às 2h da tarde, tive uma boa notícia e corri para o telefone. Na primeira chamada, atendeu a secretária eletrônica, mas nem deixei recado. Na segunda, o celular estava fora de área, na terceira, ouvi um "não está dando para falar agora, te ligo mais tarde"; a partir daí, nem lembro mais. Só poderia contar minha alegria a alguém muito íntimo, e tive aí o primeiro susto: quantos amigos íntimos eu tenho? Poucos, muito menos do que eu imaginava.
Será que Roberto Carlos conseguiu ter 1 milhão de amigos? Se eu tenho tão poucos, a culpa deve ser minha, claro, que não procuro ninguém, e quando me convidam para alguma coisa, com raras exceções, arranjo uma desculpa e digo que não posso ir. Aí fico pensando: preciso mudar. Vou começar abrindo minha agenda e ligando para pessoas que não vejo há séculos para dar um alô, dizer que estou com saudades, perguntar pela vida e terminar a conversa com o inevitável "vamos combinar de almoçar, te ligo". E aí, vou ligar? Já sei que não, e se a pessoa me ligar, talvez diga que estou cheia de trabalho, na segunda-feira vou viajar, que telefono quando voltar. Difícil ser difícil, e difícil deixar de ser.
Com tudo isso até me esqueci do principal: continuei sem ter ninguém com quem compartilhar minha alegria. E é curioso: se minha alegria era tão grande, por que ela não me bastava, por que a necessidade de contar para o mundo? Será que não posso ser feliz sozinha? Por que será que quando se trata de boas coisas preciso que o universo saiba, e quando estou triste prefiro ficar muda, sozinha? Fiquei pensando em tudo isso, mas continuei sem ter com quem falar sobre minha alegria, que àquelas alturas nem era mais tão grande assim.
O dia foi passando e eu esperando que meus poucos amigos íntimos chegassem em casa para poder contar. Às 7h recomecei a telefonar, e mesmo sem todo aquele entusiasmo, fui logo contando o "acontecido".
A reação foi morna. "Ah, mas que ótimo, parabéns, você deve estar feliz". Mais uma ou duas frases sobre o assunto, e a conversa passou a ser a de sempre: a violência do Rio, o quanto vão roubar com as obras da Olimpíada, a próxima eleição, a dieta que não se consegue fazer, a ginástica que vai mal, e daí a pouco a conversa acabou, com um "vamos ver se a gente almoça no fim de semana", e ponto.
Um pouco mais, um pouco menos, foi igual com todos os meus poucos amigos íntimos, e minha alegria, que tinha sido tão grande, murchou. Eu é que sou louca, pensei, afinal não havia motivo para tanta euforia.
Ou será que havia? E lembrei de meu pai e de minha mãe; os pais são as únicas pessoas que têm todo o tempo do mundo para nos ouvir e são solidárias não só nas nossas tristezas como também nas nossas felicidades.
Estou sendo injusta, nossos analistas também nos ouvem; mas às vezes a gente precisa mais do que de quem nos ouça. Precisa que nos ouçam com afeto.

 

 

 

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